29/10/2009

PoemA PerfiL

Sou um conservador de novidades
da nova idade
que descobri
nos clássicos da antiguidade.

Sou duas miliquinhentas macumbeiras num único transe a beira-mar.

A palavra para sempre proferida,
lida por todos pra todo o sempre,
porém nunca ouvida,
que o companheiro de Tristessa
grita na loucura do alto de seu paraíso.

Minha triste figura não é o que as freiras pensam
O que os advogados pensam
O que as mães imperdoáveis pensam
E nem o que pensa a simbólica ideologia-homem dum Milton Santos no inferno...

monomanniaco

08/09/2009

Uma tela de Jonas Burgert

jonas burgert - mondjager - oléo sobre tela 300x280 cm - 2005
Há, nesta tela, um fantástico elenco de personagens, tanto animal e humana, que mantem-se durante ritual ao redor de um Orb branco e brilhante; o Prémio da Mondjäger (ou "Lua Hunter") refere-se no título da pintura. A cena de elaboradas camadas, com a sua dramática iluminação, figurinos exóticos e pespectiva onírica, são maravilhosamente teatrais, e faz-se como escada a lugar de algum inconciente primitivo do homem que só tem paralelo hoje no neo-paganismo do candomblé e no xamãnismo referido pelo poeta Roberto Piva. "Para fazer algo estranho, como pegar um planeta, é necessário primeiro uma mudança da mente e do corpo para se tornar uma parte de um ritual", diz Jonas Burgert, pintor alemão, paticipante do acervo da Saatchi Gallery e um dos grandes nomes da pintura comtemporânea. "Uma das necessidades espirituais é a cópia de si mesmo, a fim de se ter um diálogo entre um personagen de seu interior.", completa o autor.


monomanníaco.

18/08/2009

Site do fotógrafo Alessandro Bavari. Sensacional!

O fotógrafo Italiano Alessandro Bavari(63), participa de exposições de arte em fotografia e pintura desde de 1987, é autor de inúmeros comerciais para empresas européias e trabalha também com capas de discos para bandas de rock pesado do caralho. Entre seus grandes trabalhos estão a nebulosa e obscura sequência SODOMA E GOMORRA e CURA DELL'INCANTO IN CHIAVE MINORE que é uma trilogia digitalizada onde cada uma das fotografias apresentam indepandência total entre Elas, mas que juntas formam um único e lindo trabalho com detalhes ricos e bom uso dos recursos tecnológicos atuais. No mais, o Alessandro é um bom artista comtemporaneo e que vale a pena ser conhecido por todos que se entereçam em um bom trabalho fotógrafico. Seu sítio está hospedado nesta página bilíngue iglês/italiano:
http://www.alessandrobavari.com/

Visitem!

17/08/2009

Pinturas de Alex Gray








25/06/2009

naum não

naum naum naum naum naum naum naum
naum naum naum naum naum naum naum
naum naum naum naum naum naum naum
naum naum naum naum naum naum naum
naum naum naum naum naum naum naum
naum naum naum .não. naum naum naum
naum naum naum naum naum naum naum
naum naum naum naum naum naum naum
naum naum naum naum naum naum naum
naum naum naum naum naum naum naum
naum naum naum naum naum naum naum

monomanníaco

16/06/2009

.
.
.
"Ninguém arranca a carranca da proa do meu navio!"
.
.
.
.
banda Arcano XIX
.

05/06/2009

MAX MARTINS

NUM BAR

Num bar abaixo do Equador às cinco da manhã escrevo
meu último poema....................
Arrisco-o
ao azar do sangue sobre a mesa mapa
de crises cicatrizes moscas

...................................Gravo-o
fala de mim demão e nódoa
nós e tábua deste barco-bar

....................................que arrumo e rimo:
....................................verso-trapézio... osso
....................................troço de ser

....................................escada onde
....................................................lunar oscilo
....................................................solitário

quando
vieram uns anjos
de gravata e me disseram: Fora!

De O Risco Subscrito (1980)

24/05/2009

Aos Travesseiros

Nunca vimos fome.

Não sentimos sede imortal.

Nascemos bonitinhos

como gatinhos em curiosidades eternas.

Até que aprendemos

o crescimento como

complicação do Ser.

Fazemos nossas vidas

feias e dançamos

nus em palcos

por misérias.

Não cantamos

Odes aos que se fodem

não gostamos de nós.

O que há

é alegria dissimulante de nosso choro

e se nossos travesseiros

ganhassem vidas,

andando alegres por aí,

viríamos a vergonha

imposta sempre

pelo fruto da árvore do conhecimento.

A vergonha que

sempre, sempre, sempre

ignoramos

e que, passando

todos os dias

demasiado perto Dela,

só temos coragem

de confessá-la

aos travesseiros.

monomanníaco

22/05/2009

L&PM
LANÇAMENTO – ENCYCLOPEDIA
Geração Beat
de Claudio Willer
Volume 756 da Coleção L&PM POCKET – 128 páginas – R$ 12
Lançamento e sessão de autógrafos do livro Geração Beat, de Claudio Willer:
3 de junho, quarta-feira, a partir das 18:30 h, na Livraria Martins Fontes: Av. Paulista, 509 - São Paulo – SP (esquina com ruas Brigadeiro Luís Antonio e Manoel da Nóbrega
TRECHOS:
"Os beats chegaram a ser acusados de iletrados. Na verdade, são um exemplo de crença extrema na literatura, atribuindo-lhe valor mágico, como modelo de vida e fonte de acontecimentos, e não só de textos. A relação com seu tempo lhes conferiu sentido político. Contribuíram, ao se converterem em expressão de um movimento geracional, para uma abertura, um grau maior de tolerância com a diferença e a exceção, que, ainda hoje, não pode deixar de ser valorizada. [...] A eclosão de uma cultura jovem, autônoma, nos anos 60, da qual, por sua extensão e complexidade, acabou ficando uma crônica viciada por estereótipos, não pode ser interpretada como rebelião consentida, nem desqualificada como burguesa, subproduto da prosperidade capitalista e indício de sua decadência. "

06/05/2009

Quem nasce primeiro o homem ou a técnica. Isto já está me perturbando há dias, sem que sossegue em decidir entre a galinha e o ovo. Simondon disse que o homem é invento da técnica, o Lemos também. Ai ai ai... A historia materialista(aaaaaaaaai!) diz que a história do homem é a história da técnica. Milton Santos também: que o primeiro ato técnico é que inaugura o homem e a história. Vou ver se fumo toda a jamba do condado pra ver se encontro esse homúnculo primário, rei da técnica, se o encontro de fato na análise do espaço ou do ciberespaço, e o interrogo sobre seu nascimento e o da técnica.

05/05/2009

Cidade
Vive ao contrário e em frente
É comum que alguém leve pau
Se fuder na cidade é normal
Essa é sua uni corrente

Saberei, pasmo, também, lhe contar
Que Ela sangra em toda a gente
Vez por outra até Eu-crente
Me ponho certo que irá me salvar

É quando vejo, vida desalmada,
tenebrosa forca que a diaba enluarada
Me prepara em vingança comum

Ou vala de lama cavada em qualquer
pedaço de seu pedaço, Ela é mulher,
de lama de seu bairro, o que quiser.
monomanníaco

04/05/2009

Da obra de Fernando Hereñú AKA Pulpo
(Buenos Aires, Argentina, 1977).
.

XHOMBRES
.
TRANSLING

.
HIDDEN BICI



.
A32

30/04/2009

A Jorge Luis Borges


Proto-Ser que sonhaste
em tuas ruínas circulares
de matas obscuras
e calaste cego no infinito d'alma.
Bar que me deste
em celebrações de luzes do Daime.
A serpente de agora para diante
dorme em sono eterno,
seu despertar
é a força que sonhaste
em visões de mim em seu aleph
inesistente.
Ó clássico poeta
dos Argentinismos mais esquecidos
de todos os tempos!
Teu sangue literatus
é o que nutre a serpente
que de tempo em tempo desperto
em versos que nem um homem sonhou.
Borges! Suas inspirações
são coisas sim dos Deuses que nunca viste.
monomanníaco

27/04/2009

ERNESTO DE SOUSA

tempo tempo

Janas, a x dias da morte. Tem que ser o tempo. Como dar tempo ao
tempo,
ausente
o teu corpo continua
no meu corpo agora
tempo
evidência e voz
cada som aberto sobre a morte
tempo sol a sol e latido
evidência
epiderme................ rugosidade
luz na saliência e sombra
na virilha no leito
como dar tempo ao tempo
e o rumorejar...........................à onda
na sombria caverna selvagem
mortal madura maresia

corpo lençol e espaço

sob a guerra deslizante e suave
do leito
estendida
apartada em tempo certo
e tépido
durmo contigo ausência

a revolta da sombra
quente
e o orgasmo da mão estendida
na longa coluna aba
abalada
entre leito e brancura

ERNESTO DE SOUSA

20/04/2009

FOTOGRAFIA FEITA POR ALESSANDRO BAVARI PARA O DISCO "NACHTMAHR" DA BANDA ALEMÃ JANUS

16/04/2009

Alphonsus de Guimaraens Filho

NINGUÉM
Ninguém se engane se soar a hora,
se todos os relógios, de repente,
gaguejarem nem sei que dor fremente
que nunca veio e não se foi embora.

Ninguém se engane se souber quem chora,
que um grande choro convulsivo e quente
virá das coisas como espada ardente
atravessando a carne ontem, agora.

Ninguém se engane se dos seus papéis,
dos seus livros inertes, um lamento
terrível se levante como um vento
de maldição e de intenções cruéis.

Tudo, a este instante, é como um grande grito
quase a romper as cercas do infinito.

Alphonsus de Guimaraens Filho, De Discurso no Deserto (1975-1981)

20/03/2009

Tragédia e Comédia de um Escritor Novo do Norte...*
.
Dalcídio Jurandir
.
Estava um pouco aperriado com a divisão do município de Itaituba em setores censitários... Tinha vindo desse município, o maior do Brasil, com uma vilazinha jogada na solidão do Tapajós, um poeta da velha escola, com rimas ricas, que é o poeta Rodrigues Pinagé e o prefeito Fortunato, patriarcal prefeito com a mesa farta, mandando buscar a banda de música de Aveiro para tocar no aniversário de sua esposa e a sua malquerença com o judeu Moisés, gordo homem que tem a única frigidérzinha da vila e um piano em casa.
Itaituba não fica muito distante das cachoeiras e dos índios lá do alto Tapajós. Tem também a febre, criatura muito conhecida na Amazônia. Há também umas sondagens de petróleo que ficaram para outra ocasião. Tomei banho, de madrugada, num poço de água sulfurosa, água morna vinda do fundo da terra, que foi uma maravilha. Cheguei a Santarém na lancha "Eulina" rebocando o seu pontão cheio de passageiros, da gente não ter um lugar para armar rede.Dois dias assim no Tapajós, descendo. Tapajós é um grande rio, seu povo luta asperamente contra a febre, a miséria, a ignorância, a exploração comercial e vai tirando a sua borracha, o seu caucho, couros e plantando seringa na concessão Ford. Sempre dá um movimento à concessão Ford. Pena é que não deixe que os seus trabalhadores tenham garantia alguma no seu trabalho. O Instituto dos Industriários mandou seu funcionário lá e os súditos do Rei do automóvel não quiseram se explicar. Ali na concessão quem manda é Mr. Ford e isso de Caixa de Aposentadoria e Pensões é para Mr. Ford engulir. Também tem o Dr. Mac Dowel que é um grande advogado, servido por uma incomensurável cultura dentro de biblioteca tipo castelo feudal, majestosa e a pique, com a respectiva ponte levadiça por onde sua senhoria desce para o seu austero e patriótico escritório. Mas isto não quer dizer nada com o prêmio "Dom Casmurro". Estava trabalhando quando me vieram dois telegramas. Fiquei alarmado. Minha família mora em Belém e podia ser alguma notícia má. Mas era o primeiro prêmio. E o engraçado foi que em Belém deram a noticia da vitória do romance "Marinatambalo", mandado para o concurso pelo Maciel Filho e o meu querido Abguar Bastos. de São Paulo. Quando mandei o "Chove" já o outro andava no concurso. A carta de Abguar avisando, veio na hora em que se mandava o "Chove" pro Rio. Quando minha mulher mandou o telegrama de Brício de Abreu fiquei pensando em Salvaterra, onde passei a limpo, ano passado, o “Marinatambalo” e escrevi o “Chove”.
Do "Chove" tinha uma papelada velha que se pode convencionar como material todo desarrumado e roído de traças, vindo das alturas de 1929. Me lembro que fiz essa tentativa com uma literatura desenfreada e uma pretensão a fazer estilo, que era um espetáculo. Andei escrevendo em Gurupá, depois num barracão no rio Baquiá Preto nas ilhas de Gurupá, onde era empregado. Ali ensinava os dois meninos do patrão Pais Barreto, a ler, nos livros de Felisberto de Carvalho. Passou o tempo e larguei o troço sob o peso do castigo de tanta presunção literária. Em Salvaterra pensei então retirar do entulho os personagens mal esboçados, o fio de algumas impressões vagamente fixadas e fiz o romance. Nada ficou da tentativa de 1929. Estava de férias como inspetor escolar, na vila de Salvaterra, para onde me mudei de Belém, por medida de economia. E ganhando 365$000 por mês, porque 100$000 que eu podia ganhar mais, eram para pagar a prestação da máquina de escrever que tive a loucura de comprar. Sem ela não podia ir pra frente o plano de escrever o "Marinatambalo e o "Chove". E eu e Guiomarina, minha mulher. Fazíamos os maiores malabarismos com os trezentos e sessenta e cinco. Não éramos somente nós dois em casa. Eu metido com os dois romances e ela vendo se os trezentos e sessenta e cinco rendiam mais. Tinha umas diárias de 150$000 mas foram cortadas porque vieram as férias escolares. Perdi as diárias magras e arrancadas com unhas e dentes do Sr. Pernambuco Filho, diretor da Educação, apesar de ter sido eu o único inspetor escolar que saiu de Belém sem temer febre, chuva, rompendo atoleiros, andando em montarias, para visitar as escolinhas auxiliares, perdidas no mato e no campo. Roemos uma chepa fazendo os romances. Depois o dinheiro custava a vir. Esperávamos as canoas de Belém. Uma era a "Antuérpia" e outra era a "Vila de Salvaterra". Esperávamos angustiados. Tínhamos, é verdade, a camaradagem do Valdemar cavando no boteco pra salvar o capitalzinho, do Veloso da mercearia. do David Paulo. de Soure, da família Bla. Sai com os dois romances mas fiquei devendo dois meses de casa. a sessenta mil por mês, e cento e quarenta mil no Veloso, que ainda não pude pagar.
Por essa época — me lembro de certa noite que dormi no chão porque a rede já não prestava mais e dinheiro não havia para se comprar uma nova. Foi nessa época que tive a honra de ser apresentado a uma senhora Nenê Macagi, que apareceu escritora em Belém, pirangando os moles no Pará, até com a Prefeitura de Soure. Esta senhora não me deu importância alguma, primeiro porque eu, caboclinho, estava de macacão e tamanco, segundo, porque a dita senhora era uma escritora. Muita gente ainda pensa que o Pará é terra de seringueiros coronéis. Aparece uma turminha de malandros metidos a literatos, cantoras, etc., e caem em cheio em cima do governo, sangrando o Tesouro. Os da terra ficam no peixe frito.
Ah! é notável a influência do peixe frito na literatura paraense! Peixe frito é o peixe vendido em postas nos taboleiros do Ver-o-Peso ao lado do mercado em Belém. É a comida para quem não deixa almoço comprado em casa. Ao chegar o meio dia, o pobre se tem a felicidade de haver arranjado dois mil réis leva um embrulhinho envergonhado de peixe para casa. A vida literária do Pará tem se movimentado em tomo do peixe frito. Conheço profundamente esse drama. Sempre fui empregadinho público como me chamou certo imortal (da Academia de Letras do Pará), morando numa barraca na São João, com família e perseguido pelos camisas verdes. Vocês sabem o que era naquele tempo viver perseguido pelos camisas verdes. Acabei gramando xadrez comum, o mesmo xadrez onde os ladrões de galinhas e porristas passam vinte e quatro horas. Nele passei três meses, apenas porque a infâmia dos camisas verdes chegava a tudo naquele tempo. Me ficava bem, aliás, estar em companhia daquela pobre gente em vez de estar na companhia dos autores da infâmia. E outras histórias. E outras misérias. E a vida do chamado intelectual na província é mais trágica do que se pensa. Bancamos bobos de rei, mas de graça. A não ser a honra dum convite para uma qualquer chateação literária e mais nada. O resto é o peixe frito.
Agora com a geração mais nova aparecem moços que felizmente, vieram de famílias mais remediadas. Mesmo assim estão fechados na província, isolados, boicotados, negados. Se na geração de Abguar Bastos há nomes como o desse Bruno de Menezes que tem poemas lado a lado com os melhores de Jorge de Lima e Manuel Bandeira, na geração mais nova temos um Ribamar de Moura, um dos grandes pensadores jovens do Brasil, Leví Hall do Moura, cronista admirável, Stélio Maroja, F. Paulo Mendes, Machado Coelho, Cecil Meira, Daniel Coelho de Souza. Novíssimos como Carlos Eduardo, o poeta de "Este rumor que vai crescendo", e Mário Couto, um contista dos maiores entre os jovens contistas brasileiros. Nomes como De Campos Ribeiro que acaba de publicar um belo livro de poemas. Oséas Antunes quetem três romances inéditos e muito bons, Jaques Flores, poeta de Cuia Pitinga, as poetisas Miriam Morais, Adalcinda e Dulcinéia Paraense, os desenhistas Ângelus, vindo do movimento Graça Aranha, o admirável Gari e o singularíssimo Mariz Filho. Agora mesmo o autor do filme "Aruanã", Libero Luxardo descobriu em Marabá um desenhista fabuloso mesmo. Chama-se Morbach. Seus desenhos têm muita coisa de "terreur", de bruto, de essencialmente amazônico. Aquele grande amigo que é Nunes Pereira, insatisfeito e vigoroso Nunes Pereira com a sua dispersão e os seus pés infatigáveis, rompendo todos os caminhos da Amazônia, metido com índios, peixes, selvas e febres, Nunes achou em Morbach aquilo que ele entendia como verdadeira interpretação da paisagem e da humanidade na Amazônia.
Quero fazer aqui uma referência especial a "Terra Imatura", a nossa pobre e querida revista fundada pelo meu amigo Cleo Bernardo, um novíssimo, uma alegria e um entusiasmo sem limites e uma das mais puras amizades que encontrei na minha vida. Com ele lutam Sílvio Braga, Rui Barata, além dos que já falei.
Antes de acabar estas notas escritas apressadamente para pegar a mala aérea, quero contar um pouco da história do "Chove".
Pensava acabar o romance um pouco antes do encerramento do concurso. Mas não acabei. Voltei de Salvaterra sabendo do adiamento. Mendes e Stélio leram o livro e acharam que eu devia mandar uma cópia mais limpa. Como, se faltavam vinte dias para terminar o prazo? Então Guiomarina, minha mulher, doente como se achava, se dispôs a datilografar o romance. Eu, desanimado, não dava conta e depois ocupado na luta do peixe frito e mesmo porque aceitara um lugar no Recenseamento oferecido pelo amigo Adelino Vasconcelos, delegado regional do Pará. Guiomarina, doente, em quinze dias passou a limpo o romance. Foi uma obstinação. Ela queria que eu mandasse a pulso o romance para o concurso. Por isso que todo o sucesso devo a ela.
Mas faltava o dinheiro para mandar o livro pelo avião. Só havia três dias de prazo. E com Mário Couto fomos cavar entre os amigos o dinheiro. Paulo Mendes e Stélio me deram dez mil. Jorge Malcher, cinco. E eu tinha vinte. Fui à Panair expedir o livro como encomenda por ser mais barato. Mas me disseram que não se fazia mais encomenda. Olhamo-nos eu e Mário, desalentados. Meu desejo era corresponder ao esforço da Guiomarina. Não queria voltar para casa com o livro debaixo do braço e vê-la triste, sabendo que todo o trabalho havia sido inútil. Ao menos o consolo de enviá-lo ao concurso, queríamos. Saímos da Panair e voltamos. Cavamos mais dez e fomos ao correio. Entrei na bicha e esperei a minha vez. Tinha o dinheiro na mão e aflito porque não sabia de certeza quanto era a taxa. Se fosse mais? Esperei meia hora na bicha para chegar ao guichet e ouvi do funcionário que a taxa era tanto e o dinheiro não dava. E me olhou com uma tal superioridade funcional que sai. humilhado. E eu era a desolação em figura. Faltavam vinte mil réis e onde encontrar esses vinte mil réis? Pensei no personagem do "Chove" e sai com Mário, atrás dos vinte mil réis. Vimos na Confeitaria Central o pintor Barandier da Cunha e Osvaldo Viana. meu amigo e uma das figuras expressivas nos meios de Belém. Eles nos deram os vinte. Corremos, faltava meia hora para fechar a mala. Entrei na bicha, suando e pensando em Guiomarina, em casa, esperando o resultado do trabalho. E mandamos o volume no porte simples, sem recibo, sem nada, para um rumo incerto, podendo nunca mais chegar ao DOM CASMURRO!
Tudo isso humilha e esgota a gente. Conto tudo isso rara mostrar como é que se escreve no Brasil.
Nada direi da minha vidinha literária. Nasci em Ponta de Pedras, me criei em Cachoeira, Tenho trinta e um anos, com caderneta militar de segunda categoria, etc. Cultura: estudos primários com o professor Chiquinho e Grupo Escolar Barão do Rio Branco, em Belém. Estive dois anos no ginásio. Nele desaprendi o que levara do grupo. Quase todos os professores me desanimavam, dinheiro não havia, tive sarampo, curado pela minha segunda mãe Dona Lulú, acabei perdendo os exames do segundo ano e virei vagabundo de subúrbio em Belém, morando na barraquinha de Dona Lulú que me dava comida, luz para escrever versinhos, e um sapato de quando em quando. Fui ao Rio na terceira braba do "Duque de Caxias" e acabei lavando pratos no Hotel São Silvestre, na rua Conselheiro Zacarias, passando o esfregão no corredor da pensão onde morava de favor, dormindo em cima duma colcha rota no chão e comprando para a patroa a carne no açougueiro e levando cesto feito criado quando o amante da dona ia na feira fazer compras. Tinha dezenove anos. Tinha mais dois cartões. Um para o então senador Lauro Sodré. E o outro para o doutor Gustavo Barroso. O do Dr. Lauro não dei porque não sabia a casa dele. Com o do Dr. Gustavo Barroso fui ao "Fon-Fon". E isso depois de vou-não-vou, temendo a importância do Dr. Barroso e do "Fon-Fon". Encontrei um senhorzão bem nutrido e vestido, que ao receber a minha carta me perguntou com voz sonora c confortável "sabe revisão?”.
Me botou num caixote à espera que o revisor da revista pedisse demissão e eu ocupasse o lugar. Um dia o desânimo aumentou. Nada do revisor sair e a dona da pensão me aponta outros empregos, muito impaciente com a minha situação. E me despedi do majestoso Dr. Barroso, cujo displicente olhar caiu sobre mim com uma tranqüila superioridade e com tão solene desdém que desci a escada do "Fon-Fon" como um escorraçado.
Voltei na mesma terceira classe do “Duque". Fracasso completo. Vagabundo sempre. Papai em Cachoeira sem nada poder fazer e Dona Lulú na barraquinha me dando o que podia arranjar na sua máquina de costura. Foi então que escrevi ao Sr. Paulo Maranhão, proprietário da "Folha do Norte" uma carta floreada como página do meigo Dr. Aluízio de Castro, pedindo um cargo de suplente de revisão. Ele me respondeu de testa que "emprego era o que não havia e que fosse bater noutra porta".
A nota vai comprida demais. Escrevo apressado para não perder a mala aérea. DOM CASMURRO me lançou e nada posso dizer porque o que ele fez foi agitar a terrível questão dos pobres escritores mergulhados na província. Foi a obra magnífica de DOM CASMURRO. Nada mais posso dizer acerca do "Chove nos campos de Cachoeira", porque somente poderia dizer coisas ruins. É um livro tão meu que não sei falar bem dele, não sei explicar finalmente. Tem toda a desordem, os defeitos, as lutas dum livro sincero. Eis a coisa ruim que posso ainda dizer... Mas quero acabar que tive uma grande homenagem por causa do prêmio. Fui com o meu amigo Cronge da Silveira, em Santarém, tomar tarubá na casa de dona Ana, no bairro da Aldeia. A casa de palha, o chão batido e as moças simples e alegres cumprimentaram o "escritor premiado...” O tarubá é uma bebida fermentada de mandioca muito usada em Santarém. E naquela noite da Aldeia, num banco no terreiro, tomamos o tarubá, bebida da terra e do povo. Não me esquecerei nunca da Aldeia.
Este texto saiu no prefácio da 1ª edição de “Chove nos Campos de Cachoeira” (1941), Editora Vecchi.

19/03/2009

Do Poeta Ronaldo Costa Fernandes:

POEMA SOBRE ARAMES
.
Há mãos farpadas
que não ouso tocar
assim como algumas
barbas que é o ódio
que escorre
das comissuras da boca.
.
Há lençóis de arame farpado
na cama de dois
que não são mais um.
.
Oh coleção de línguas
que ao lamber a carne
abrem feridas.
.
Já o arame dos teus olhos
são farpas que nada cercam.
Tuas cercas, até mesmo tuas cercas,
são mais vivas que as minhas.
.
Farpada é minha mente
que me fere quando penso
o que pensar não deveria.
.
Ronaldo Costa Fernandes, In A Máquina das Mãos-7Letras, Rio de Janeiro, 2009

16/03/2009

Sigamos, pois, para além de toda balbúrdia contemporânea informática
Por ruas que como vales desesperados seguem sem cessar ao horizonte infinito e sem luar
Por ruas que como nós estão aí só para ficar
Sigamos à caça do porvir só a ver se virá
Pisar a grama verde
Singrar o lago de asfalto e carne no cerne de teu pensar
Saltear a margem que é a imagem de tua morte com bandeira e vau duro e galgável
Seguir por onde der
Seguir com o que vier e não só com mesa pés pernas e além caminhar
Seguir como segue o homem duro e nu que é lindo por ser duro e estar nu
Pisar o céu que estranhamente se pôs abaixo de nós e minha estranha mente só deu um Há!
Porque o que é ter e ficar se ser e estar aboliram-se de nós e vivemos agora em outros
Seguir só para ver da vida a cara como está ou foi ou será
Seguir pelo parco motivo de seguir
Seguir com o que em nós só quer gritar
Seguir por ruas de labirintos rotos como o monomaníaco a se perguntar: "O quê que eu vou ser O quê é que eu vou ser O quê é que eu vou ser!"
Seguir para ver o escarcéu de duas mil e quinhentas macumbeiras a beira mar
Seguir para o outeiro de palanque e com quase nada que temos lá nos hospedar e sair a comprar avós e antepassados pra nós
Adquiri-los a prestações infinitérrimas e paga-los com a pós-morte que não virá
Seguir aos bairros onde não se pode andar
Caminhar por suas ruas arriscadíssimas onde um homem matou outro e o corpo morto continua lá, cem anos após o óbito, caído de decúbito dorsal com olhares em cima a mendigar qualquer desgraça alheia
Seguir atrás do sol e voltear sem cansarmos-nos a bola negra em que se tornou o mundo dos ismos liberais.
Seguir!
Seguir! Pois é só o que resta pra nós!

monomanníaco

28/02/2009

Eis a monomania de um bom Poeta, Ozanã Torquato Velho, da cidade de Mauá em São Paulo. O.T.Velho, como é conhecido, é autor do Conservatório Íntimo, blog onde edita muitos de seus versos em quartetos loucos. Entre os que conheci aqui pela Internet, destaco este que segue, por sua "dor nunca doida" de onde "o regimento passa"
.
QUANDO O REGIMENTO PASSA.
Poeta é aquele que se vê
Em cada frase que escreve,
E se espanta quando lê
Seu infinito curto e breve.
.
Pois quem escreve se adianta
E sabe bem o que é sentir,
Traz a mentira na garganta
Porém não mente ao mentir.
.
Se pouco fala do que sente
Sente que nada lhe completa,
E, tão amiúde e raramente
Sabe se é louco ou poeta.
.
E assim na dor nunca doida
Há este bem que satisfaz,
O complemento que a vida
Faz para aquele que a faz.
.
Mas um poeta... Que dizer!
Se todo mundo tem um pouco,
Da eterna dor de escrever
Para provar que não é louco.
.
O.T. Velho

26/02/2009

Beto - Doido fechou olhos e pariu um poema.

Correu à rua e, tonto,
O leu na praça pública.

Longa leitura
De seu mais um poema.

A poesia era doida em Beto - Doido,

E a praça pútrida, objeta.

E Beto,
Poeta da rua que não se sabia louca,
De tão louco obrigou a populaça
A escutar-lhe algo escrito em papel
Gritado por sua pequena boca torta.

Louco, ninguém lhe escutava nada.

Em protesto:
Pulou no canal,
Subiu na imunda mureta que havia,
Invadiu casas,
Estraçalhou berros
E
Ninguém lhe escutava nada.

Beto - Doido, então,
Rasgou o papel feito em poema
E foi tentar outra rapsódia arrancada da mente.


monomanníaco.

Poema

Um longo tempo se
passou desde que
o azul no céu, meu céu,
era sempre o azul de seus olhos
nem por isso adeus.
Um oceano de possibilidades
vem também agora,
a felicidade,
como se diz,
não tem hora.
Lembro-me como forte o sorriso seu
sorriso de encher sala
toda graça que
até ao mais falante cala.
Longo tempo
para Mim e para Ti.
Longos olhares a encher salas
e sorrisos azuis.
E sigo todos os dias
voando para Mim
sabendo o que ainda És agora.

monomanníaco

18/02/2009

Não sinto sono

Nem sinto nada

Nem me descanso

De minha alma parada.

Lá fora

Por chover

Está o céu.

Chuva e céu

Que recobrem

Infinitas comunidades

Ignotas em manias

E jeitos fantásticos.

Manias e jeitos que se vão

Sumindo pela estranha escuridão

De minhas manias e jeitos.

Que me fazem não sentir sono

Nem sentir nada

Nem me descansam

De minha alma parada.

O céu todo a chover

A despencar por toda a parte

Amassando-me com sua

Densidade Olímpica

Ou gases nobres.

O céu

Dissolvendo:

Manias e jeitos

E

Pensamentos e escrita

De minha alma não-mais parada

Dissolvendo Nada

31/01/2009

A Queens - Will - Play - Michele Santarsiere. in DevilSoap.

18/01/2009

Mais uma vez!

O Cinismo

O grandioso Imperador, logo após uma de suas conquistas, ao amanhecer, decidiu-se por visitar o sábio que no alto de uma montanha vivia. Conhecido por seus hábitos simples e simplesmente viver o agora, toda a cidade, em tempos de glória, conferenciava com este muito nobre eremita. Sua moradia era uma caverna de não mais que um cômodo. Sua toda mobília apenas um tabuleiro de pão.


Somente a passos humanos caminhava o conquistador de povos. O crepúsculo da manhã já se ia mais rápido. Os raios do primeiro sol do dia impetravam finalmente o cume da montanha habitada.


Viu-se, então, sobre uma rocha, perfeitamente em seu lugar, num conforto perceptível, um homem de sessenta anos aparentes, enrolado em trapos que aumentavam sua nobreza. Altamente concentrado nalgum ponto do infinito horizonte ocidental, o mágico anacoreta não deu pelo famoso Imperador senão quando de sua pergunta:


__ Nobre e sábio Diógenes! Eu acabo de conquistar seu povo e vários outros povos em direções várias de todo território. Possuo riquezas e poder grandioso. Sábio e nobre Diógenes! Faça-me um pedido, o que quiseres, e será realizado!
O Cínico, muito pacientemente, respondeu:


__Saia da frente do meu sol!


monomanníaco

17/01/2009

Não que eu queira

Não que eu ame

Não me obedeça

Não me reclame

monomanníaco

E agora
Que procuras e não há ninguém?
Lembras!
Orgulhava-te:
"Este ano não desejei ano bom a ninguém."
Orgulhava-te:
"Não lembra de mim?! Eu também não lembraria."
Estás no fim.
A procurar um:
"Como vai?!"
E não encontra ninguém.
Vivias encegueirado no amor amealhado da mulher amada de então.
E com outros amores não queria nada.
O amor se foi.
Partiu para onde tinha de partir.
Ao infinito de onde saiu voltou.
Só Tu não voltas.
Estais sempre repartido entre o ir e o lembrar-se algo.
És a morte da saudade.
(Palavra única brasileira)
És o desequilíbrio de toda sanidade.
És a própria loucura.
Onde Deus dispensou não sua maldade,
mas a alegria dos vendavais que é o peso maior do amor Divino.


monomanníaco
Antes:
A canção de morte dos Anjos negros.
Agora:
O cão de rua que,
cabreiro,
urina num canto e outro da feira,
com o rabinho a correr entre pernas.
Agora:
Esse fim sem fim algum.
Na miséria de ser um.
Acabado na beleza do sonhar.
Morto de observar.
Sou um grito.
A seta que desafia a meta é o que sou.
Sou torto.
Torpe.
E tonto.
Sim, sou.
Mas agora. Só.


monomanníaco.

27/12/2008

numa vontade de ser poema

mas não dá.

Tenho uma lápide

um isqueiro

uma fome tanta

que té parece a dor da manhã de tão sol.

Estou tão só

esquivo ao convívio comigo.

Tô numa vontade de cinema

minha meia-entrada não tá.

Tenho uma louca na porta

de repente a porta Ela abre

me perdoa da dor

me esculhamba de amor.

Quero tudo nesta manhã.

Quero tudo de lá para cá.

Quero sempre um poema de sempre.

Porra. Mas hoje não dá.

monomanníaco

26/12/2008

ANGÚSTIA

Tento o Suicídio
É uma forma de triunfo.
É verdade,
Não poderei comemorar,
Nem mesmo ver a cara que Ela fará,
Livrar-me-ei com triunfo
E é verdade que sei o que quer
E o que quer sei que somente Eu lhe posso dar,
Ela me sabe sabedor do que posso
E tenta todos os dias
Fazer primeiro o que quero
Ao que resisto triunfante,
Obstinado, todos os dias.
Sigo,
Sem cruzar a linha,
O marco imaginário que me impus.
Paro, e a vejo.
Em vômitos de preces e desastres
Ânsias de me tocar e comer de uma vez.
Sei que como Ela ninguém.
Que Ela é o que há.
Não me pergunte ‘quem Ela?’
Nunca saberá a verdade.
É verdade que me matará,
Mas é verdade o que quero:
Que essa desgraça me venha palas mãos
Por minhas próprias mãos!
De outra maneira não!
Mas não poderei,
Não lhe poderei realizar sonho
O sonho meu tampouco se consumará:
Ver a cara dessa Dor que me embustia
Após morrer por minhas mãos
Ver a frustração
A cara triste de dor, a frustração, desta maldita cidade que Angustia.
monomanníaco

12/12/2008

Alessandro Bavari
CURA DELL'INCANTO IN CHIAVE MINORE(Trittico) Fotografia, cm 124 X 268 - 2006

18/11/2008

O comedor de fogo/ Paulo Plínio Abreu

Veio do comedor de fogo e de seus milagres a esperança impossível.

Do comedor de fogo e de seus milagres à porta de sua tenda

Onde dormiam os cães numa nuvem de moscas.

Veio do comedor de fogo a esperança dos mundos impossíveis.Veio dessa

lembrança hoje apagada pelo tempo o sombrio desejo de evasão.

Veio do comedor de fogo a visão da vida aberta como um grande circo

E o convite irreal para a distância onde se esconde a morte.

Até o amor se perdeu nessa lembrança de um estranho comedor de fogo

E toda a infância confundiu-se com os milagres desse saltimbanco

E de seus cães doentes à porta de sua tenda.

Paulo Plínio Abre.

14/11/2008

Por
gentileza
seja
educado
puxe
a
descarga
obrigado!

13/11/2008

Perfil do poeta Odirlei Couto, enviado a mim em e-mail camarada. Tudo isso a propósito uma minha simples pergunta: "Quem é você?"
Eu sou quem matou Cara-de-lata em esgoto do gueto de sangue e nóia da sacramenta. Sou o poeta Beto-doido enluarado e louco no anacrônico Borges Bar, sempre procurando algo e a quem escrever qualquer palavra insana incômoda à populaça que me caça e nunca mata. O poeta que de pratos vazios elege infinitos versos de beleza tanta que esquece a fome e se faz todo coração. Um dia me perdi no puteiro Pisa-Leve com a puta mágica de Macodo inundado, e vi que poesia é tudo que vejo em tudo por aí. Lasco-me, me dissipo e sempre me acho em poemas de mim. Sou a lua de Hunter. O Caiano pai de todos. O que em versos só se desdiz. Não quero ser tua ideologia, nem o enquadramento perfeito de tua fotografia. Quero ser um verso todo infinito, que de tema lascivo só me mostra como será o poema de todo o sempre. E nem quero ser sempre. Sou o provisório, o eterno e incessante porvir. Eu sou um caos. Mate-me quem puder!

12/11/2008

PoesiaNet

O Carlos Machado enviou-me outra pérola negra da poesia, que tem tudo haver com outros dois contos escritos aqui no monomanníaco: Entretido poema e Le città invisibili. O Carlos Machado enviou-me o José Paulo Paes (1926-1998), paulistano e poeta, autor de, entre outros, A meu esmo, livro lançado em 1995 e que é estardalhaço lírico e que anuncia ou escancara a desarraigada vida desalmada da tal cidade que vive e nos mata. A cidade invisível. A cidade feliz de miséria.

REVISITAÇÃO
Cidade, por que me persegues?

Com os dedos sangrando
já não cavei em teu chão
os sete palmos regulamentares
para enterrar meus mortos?
Não ficamos quites desde então?

Por que insistes
em acender toda noite
as luzes de tuas vitrinas
com as mercadorias do sonho
a tão bom preço?

Não é mais tempo de comprar.
Logo será tempo de viajar
para não se sabe onde.
Sabe-se apenas que é preciso ir
de mãos vazias.

Em vão alongas tuas ruas
como nos dias de infância,
com a feérica promessa
de uma aventura a cada esquina.
Já não as tive todas?

Em vão os conhecidos me saúdam
do outro lado do vidro,
desse umbral onde a voz
se detém interdita
entre o que é e o que foi.

Cidade, por que me persegues?
Ainda que eu pegasse
o mesmo velho trem,
ele não me levaria
a ti, que não és mais.

As cidades, sabemos,
são no tempo, não no espaço,
e delas nos perdemos
a cada longo esquecimento
de nós mesmos.

Se já não és e nem eu posso
ser mais em ti, então que ao menos
através do vidro
através do sonho
um menino e sua cidade saibam-se afinal

intemporais, absolutos.

De A Meu Esmo (1995)

04/11/2008

Poema

Vá por lá

bem longe

ver da Vida

a cara como está

Não siga adiante

se o que você

quer não quer

gritar

monomanníaco

03/11/2008

As útimas palavras do Fausto foram:
"Luz, Eu quero luz, mais luz."
ÁGUA-FORTE DE REMBRANT, UTILIZADA COMO ILUSTRAÇÃO PARA O "FAUSTO" DE GOETHE

30/10/2008

Palavra

Tu nem nada vê.
Nada.
Quando sabe,
és
palavra.
monomanníaco

29/10/2008


NINGUÉM


Ninguém se engane se soar a hora,

se todos os relógios, de repente,

gaguejarem nem sei que dor fremente

que nunca veio e não se foi embora.

Ninguém se engane se souber quem chora,

que um grande choro convulsivo e quente

virá das coisas como espada ardente

atravessando a carne ontem, agora.


Ninguém se engane se dos seus papéis,

dos seus livros inertes, um lamento

terrível se levante como um vento

de maldição e de intenções cruéis.

Tudo, a este instante, é como um grande grito

quase a romper as cercas do infinito.


Alphonsus de Guimaraens Filho, De Discurso no Deserto (1975-1981).
Foto Inês Gomes.

28/10/2008

Manuel Bandeira.

Como aqui na cidade está foda mesmo "vou-me embora pra Pasárgada", "aqui eu não sou feliz"!

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manuel Bandeira, Obras completas.

20/10/2008

Ulisses e Eu
Olhava à janela da rua fumando um fumo clandestino arranjado com o negão, pensando as luzes arcaicas da introspecção de meu eu-poema(palavra fundida). Ando em reflexão constante que quase não mexo nada. Meu gato Ulisses revirando-se em meus pés acabava por entrar em poema, mas, gato que era, entediou e me fugiu como louco. Estava faltando apenas mais um pouco do cânhamo enrolado em papel, quando um trin trin de telefone apressado trouxe-me vozes humanas, e morremos, Ulisses e eu, afogados em náufragos poemas ilimitados.

monomanníaco

a PArEdE e O SAnGUe deLa

"Se me perguntarem daqui a 200 anos o que foi o século XXI, poderei responder: o tempo dos homens que achavam tudo interessante mas não eram interessantes."

Paco Bernardo, in a PArEdE e O SAnGUe deLa


http://aparedeeosanguedela.blogspot.com/

17/10/2008

Poema de José Régio.

Fraz von Stuck - Lucífer - 1890
A característica de José Régio e sua poesia (sem formalismo!) é a dualidade. Como nítido seguidor ou encarnação de Abraxas, ele demonstra um intenso conflito onde se opõem todos os contrários, com um desvelo singular e inquietante entre: deus e diabo, amor espiritual e amor carnal, o relativo e o absoluto. Percebem-se estas questões, análogas a um Mário de Sá Carneiro, em poemas como Cântico Negro, que por hora reproduzo aqui.

Cântico Negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

(José Régio)

07/10/2008

Este é o MicroConto que deu origem a este sítio.


monomaníaco

O quê que eu vou ser?

O quê que eu vou ser?

O quê que eu vou ser?

O quê que eu vou ser?


Perguntava-se a si mesmo ao mesmo tempo em que ia passando por passeios de um beco roto cercado de tugúrios que se cresciam por lados todos.

Perguntava-se:

O quê que eu vou ser?

O quê que eu vou ser?

O quê que eu vou ser?

O quê que eu vou ser?

02/10/2008

Max Martins

O MAL-AMADO

E vinha do mar um vento
pesaroso e boquiaberto;
um secreto ar de luto,
adeus de pássaro em fuga, ou de Ófelha enlouquecendo
Numa hora como aquela,
de preces, cinzas e prantos,
hora de homem que se curva,
de mulher que se renega,
numa hora semi-escura
foi que ela disse:
Agora
que já foste meu e tens
no teu peito o meu espinho
misturado à minha mágua,
minha lágrima no lenço,
minha flor no teu destino,
parto.
E a noite que chegava nem de longe me avisava-
tudo agora se partia apartir do seu perfume,
do seu eco e seu perfil:
a saldade junto ao fogo
(que logo mais se apagou)
junto a cama que ficou
como um porto sem navios,
uma carta devolvida,
sem destino, sem valia.
Não era fêmea de cruzar,
mas pássaro de voar.
Não era gente de querer,
só máquina de gozar.
Era bela e tinha uns olhos,
não de tigre ou de punhal;
eram estrelas se estrelas
fossem negras, a brilhar.
Tinha uns seios que eram plumas-
nesse ninho eu ia sonhar!
Seus cabelos, estes sim,
me prendiam toda noite
e o meu cismar.
E suas mãos(a quem quisesse adivinhar)
eram quentes, traiçoeiras,
que queimavam no tocar
(nunca no mesmo lugar).
Seu sexo era uma alga que no mar sempre fulgia,
algo de muito atrair
porém nunca de se dar.
Era um espelho brilhando,
mas se alguém se aproximava
nele a imagem se esvaía
em maré morna e vazia.
Toda fêmea tem o sexo
dadivoso como o sol,
como a chuva ou a preamar;
o seu porém era o contrário,
era fero e alucinado
com abismos e mistérios.
Nunca mais tive notícias dessa alma desabrida
que de mim louvor não disse.
- Se de aço era sua lâmina,
foi de amor minha bainha.
M.M.

25/09/2008

O Cinismo
O grandioso Imperador, logo após uma de suas conquistas, ao amanhecer, decidiu-se por visitar o sábio que no alto de uma montanha vivia. Conhecido por seus hábitos simples e simplesmente viver o agora, toda a cidade, em tempos de glória, conferenciava com este muito nobre eremita. Sua moradia era uma caverna de não mais que um cômodo. Sua toda mobília apenas um tabuleiro de pão.

Somente a passos humanos caminhava o conquistador de povos. O crepúsculo da manhã já se ia mais rápido. Os raios do primeiro sol do dia impetravam finalmente o cume da montanha habitada.

Viu-se, então, sobre uma rocha, perfeitamente em seu lugar, num conforto perceptível, um homem de sessenta anos aparentes, enrolado em trapos que aumentavam sua nobreza. Altamente concentrado nalgum ponto do infinito horizonte ocidental, o mágico anacoreta não deu pelo famoso Imperador senão quando de sua pergunta:

__ Nobre e sábio Diógenes! Eu acabo de conquistar seu povo e vários outros povos em direções várias de todo território. Possuo riquezas e poder grandioso. Sábio e nobre Diógenes! Faça-me um pedido, o que quiseres, e será realizado!
O Cínico, muito pacientemente, respondeu:

__Saia da frente do meu sol!

monomanníaco

22/09/2008

Lembrando Magritte




monomanníaco

Creative Commons License


21/09/2008

Crepuscular

Eis que a Poesia fechou sem vagas.
Nunca mais "um" poeta.
Nunca
mais um poetar.
Não nos restam mais profetas.
Nem mesmo fé em professar.
Toda a poesia se perdeu.
Perdeu-se na estrada, no bistrô, no beat, no
nada.
E nunca chegou.
Até a Cia. Lama acabou e a poesia nunca chegou.
Perdeu-se,
pois não me quis perdido no fru-fru do vestido que diziam
trajar.
E aos que diziam de sua graça e nobre ou torpe parentar
digo
apenas que a poesia não me quis velar
não me quis contar
não me quis
cantar
a canção que aos vossos ouvidos cantava,
em beiras de canais,
vazias estradas,
e fazia-vus tremer num grito.

Não! A poesia não
me quis cantar.

monomanníaco

14/09/2008

Ayuaska

"Nasce-me a razão. O mundo é bom. Abençoarei a vida. Amarei meus irmãos. Não são mais promessas de infância. Nem esperança de escapar à velice e à morte. Deus faz a minha força, e eu louvo Deus"

Rimbaud, no inferno de seu paraíso.

Eu vi o deus-luz pisando meu calabouço. insetos em setas imediatas contra todos os pecados meus e chorei os gritos da incerteza idiota. numa das luzes meu pai com duzentos e vinte cinco anos, virava costas ao retirar-se por escadas umbrosas, recolhendo-se em sí, cansado de viver tanto tempo e virou luz. Táxis ao infinito e a estátua de Alvares de Azevedo gritando num tempo de dor e percepção. E era um certo deus de pele azul e pés de lótus, contaminando anjos com esperença infinita. Pontos de luz reflentindo sobre mim, no sentido do que faço e sou e não era nada. Até que outros insetos apontaram-me setas que levaram-me ao Pai. Parti seguindo o rasto de sua direção-bondade. E nunca mais tive medo.

12/09/2008

Soneto 225 inexorável

Beleza na mulher chega a ser chata,
de tão obrigatória que se faz.
Perfídia não lhe fica nada atrás,
pois quanto mais bonita mais ingrata.

O jovem julga a pérfida uma gata,
mas ela acha um cachorro seu rapaz.
Contudo, o tempo nunca a deixa em paz,
e a face da velhice já tem data.

Ser feio é mais vantagem. Quem o é
já fica como todos vão ficar:
a cara, velha ou não, do jacaré.

A bela, se tiver nariz no ar,
um dia vê no espelho um lheguelhé.
Só resta-lhe a vassoura pra voar.

Glaucomattoso

Fotografias de Michele Santarsiere. In DevilSoap.

vampire-sushi

vampire-sushi II

vampire-sushi-I

11/09/2008

Um Poema do mestre Guima



Luar


De brejo em brejo,
os sapos avisam:
--A lua surgiu!...


No alto da noite as estrelinhas piscam,
puxando fios,
e dançam nos fios
cachos de poetas.


A lua madura
Rola, desprendida,
por entre os musgos
das nuvens brancas...
Quem a colheu,
quem a arrancou
do caule longo da via-láctea?...


Desliza solta...


Se lhe estenderes
tuas mãos brancas,
ela cairá...

Guimarães Rosa

mestre Guima

10/09/2008

Um olho novo vê do ovo

0000000000000000000
0000000000000000000
0000000000000000000
0000000000000000000
0000000000000000000
0000000000000000000
000000000V000000000
0000000000000000000
0000000000000000000
0000000000000000000
0000000000000000000
0000000000000000000
0000000000000000000
Max Martins

30/08/2008

O poeta do pesadelo e do delírio, por Pedro Maciel.*

Wesley Duke Lee - Paranóia - 1963


“Paranóia”, o primeiro livro de poemas de Roberto Piva, publicado em 1963, é de “uma beleza quase insuportável”. As fotos dos anos 60 de Wesley Duke Lee criam uma atmosfera alucinada da cidade de São Paulo. O livro, relançado pelo Instituto Moreira Salles, é uma releitura delirante de “Paulicéia Desvairada”, de Mário de Andrade. Jorge de Lima e Murilo Mendes são os outros autores que convergem com a obra de Piva.

Roberto Piva é um poeta dos anos malditos e desbundados. Segundo o poeta, “a minha vida & poesia tem sido uma permanente insurreição contra todas as Ordens. Sou uma sensibilidade antiautoritária atuante. Prisões, desemprego permanente, epifanias, estudo de línguas, LSD, cogumelos sagrados, embalos, jazz, rock, paixões, delírios & todos os boys”. Talvez ele seja o único poeta brasileiro verdadeiramente surrealista. O surrealismo proclamou a prevalência absoluta do sonho, do instinto e do desejo. Investiu contra os padrões estabelecidos, desprezando a lógica e renegando a ordem moral e social. O processo de criação dos surrealistas baseava-se no inconsciente como meio mágico para inspirar a imaginação criadora.

“Paranóia” foi comentado em 1965, na revista La Brèche, dirigida por André Breton, o maior pensador do surrealismo. Segundo a resenha, “Paranóia é o primeiro livro de poesia delirante publicado no Brasil” e ressalta as influências de Piva, como Lautréamount, Freud e “a mais moderna literatura beat norte-americana”. Eles ainda acrescentam que o livro transmite “a fascinação dos neons e a alucinação pela metrópole metálica que evocam as fotografias de São Paulo inseridas no seu livro”. Com a publicação do livro, Piva também foi incluído no “Dictionnaire Générale du Surréalism”, de Adam Biro e René Passeron.

Roberto Piva é um poeta trágico; vive à beira do abismo. Pode-se dizer que ele é um poeta “marginal”. “Seja marginal, seja herói”, proclamava Hélio Oiticica. Piva levou essa sentença ao pé da letra: “eu preciso esquecer que eu existo”. Ele cai na vida pra criar poesia. Os intertextos poéticos falam das putas, dos cafajestes, da vida mundana e existencial: “no exílio eu padeço angústia os muros invadem minha memória / atirada no Abismo e meus olhos meus manuscritos meus amores / pulam no Caos”.

O texto de Piva é um nó na garganta, quase nos tira a respiração. É uma piração total. Seus versos vorazes transmitem o desespero de uma existência tumultuada. Ele trilhou as ruas e becos mais sujos da cidade de São Paulo para escrever “Paranóia”: “Meus pés sonham suspensos no Abismo...” O poeta faz da “anarquia um método & modo de vida” para descer aos subterrâneos do inferno. Traz o céu assombrado para iluminar a terra: “Eu vi os anjos de Sodoma escalando / um monte até o céu / E suas asas destruídas pelo fogo / abanavam o ar da tarde (...) Eu vi os anjos de Sodoma lambendo / as feridas dos que morreram sem / alarde, dos suplicantes, dos suicidas / e dos jovens mortos (...) Eu vi os anjos de Sodoma inventando a / loucura e o arrependimento de Deus”.

“Paranóia” é um pesadelo. Alucinação. Poesia intuitiva; inspirada. Tudo em Piva converge para uma ação mágica, guiada pelos mandamentos do xamanismo, do ocultismo e do camdoblé. Mas a sua obra não é obscura e nem irracional. A sua poética se vincula na própria existência. Místico e rebelde, o poeta norteia uma experiência radical de linguagem, recorre às imagens oníricas, transfigura a realidade e nos aproxima do mundo, fundindo sonho, poesia e vida.



Poemas**

Jorge de Lima, panfletário do Caos


foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima

enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente

na minha memória devorada pelo azul

eu soube decifrar os teus jogos noturnos

indisfarçável entre as flores

uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas

como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca

palpita nos bulevares oxidados pela névoa

uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil

de tua túnica

e um milhão de vagalumes trazendo estranhas tatuagens no ventre

se despedaçam contra os ninhos da Eternidade

é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado

querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve

estar como uma talismã nos lábios de todos os meninos





No Parque Ibirapuera


Nos gramados regulares do parque Ibirapuera

Um anjo da Solidão pousa indeciso sobre meus ombros

A noite traz a lua cheia e teus poemas, Mário de Andrade, regam minha

imaginação

Para além do parque teu retrato em meu quarto sorri

para a banalidade dos móveis

Teus versos rebentam na noite como um potente batuque

fermentado na rua Lopes Chaves



Por detrás de cada pedra

Por detrás de cada homem

Por detrás de cada sombra

O vento traz-me o teu rosto



Que novo pensamento, que sonho sai de tua fronte noturna?

É noite. E tudo é noite.

É noite nos pára-lamas dos carros

É noite nas pedras

É noite nos teus poemas, Mário!

Onde anda agora a tua voz?

Onde exercitas os músculos da tua alma, agora?

Aviões iluminados dividem a noite em dois pedaços

Eu apalpo teu livro onde as estrelas se refletem

como numa lagoa



É impossível que não haja nenhum poema teu

escondido e adormecido no fundo deste parque

Olho para os adolescentes que enchem o gramado

de bicicletas e risos

Eu te imagino perguntando a eles:

onde fica o pavilhão da Bahia?

qual é o preço do amendoim?

é você meu girassol?



A noite é interminável e os barcos de aluguel

fundem-se no olhar tranqüilo dos peixes

Agora, Mário, enquanto os anjos adormecem devo

seguir contigo de mãos dadas noite adiante

Não só o desespero estrangula nossa impaciência

Também nossos passos embebem as noite de calafrios

Não pares nunca meu querido capitão-loucura

Quero que a Paulicéia voe por cima das árvores

suspensa em teu ritmo



**Poemas do livro Paranóia (1963), de Roberto Piva





*Este artigo foi publicado no caderno “Prosa & Verso”, do jornal O Globo, em 3 de Maio de 2008, a propósito do relançamento do livro "Paranóia", pelo Instituto Moreira Salles.

Pedro Maciel é autor do romance “A Hora dos Náufragos”, Ed. Bertrand Brasil.
E-mail: pedro_maciel@uol.com.br



Fotografias de Wesley Duke Lee

Nos seios fixos - 1963


Enquanto os costureiros - 1963


Pombas crucificadas - 1963


Disparo-me feito uma bala - 1963




A Praça da República dos meus sonhos

Roberto Piva

A estatua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem de morfina
A praça leva pontes aplicadas no centro do seu corpo
E crianças brincando na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
Onde tudo se fez febre e pombas crucificadas
Onde beatificados vem agitar as massas
Onde Garcia Llorca espera seu dentista
Onde conquistamos a imensa dossolação dos dias mais doces
Os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
Lábios coagulam sem estardalhaço
Os mictórios tomam lugar na luz
Os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremis diante do paraíso
Bundas glabas sexo de papel
Anjos deitados nos canteiro cobertos de cal
Água fumegante nas privadas
Cérebros sulcados de acenos
Os veterinários passam lentos, lendo Dom Casmurro
As jovens pederastas embebidos em lilás
E putas com a noite passeando em torno de suas unhas
Há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
Enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh, minhas visões
Lembranças de Rimbeaud
Praça da República dos meus sonhos
A última sabedoria debruçada numa porta santa.

24/08/2008

Fotografia, o Cemitério Santa Izabel, o Guamá e Eu.

Creative Commons License


Câmera utilizada: nem uma
Técnica: nem uma
Disposição: nem uma
Intenção: nem uma
Modific
ação: nem uma


monomanníaco

19/08/2008

Poema


Vê se me dá o brilho,

Que é estação certeira.

Procura alguns trocados!

Vê que agora já é o céu que se põem

E detona todos os brocados?

Você viu o que roubou minha carteira?

Vê se me acerta e resgata

Antes do antes de qualquer besteira

O sol já está a me esculhambar poema

E mesmo bêbado

Não sou de dizer:

São cinco e meia da manhã!

Não temos tempo de sonho

Sorrisos preces nem prantos

É só mais uma

E um recolhimento

Para até amanhã

Onde tomarmos outra pura dose vã

Em qualquer canto do céu de amigos.

E pés no chão para que colecionar?


monomanníaco

17/08/2008



Uma brincadeira com fotografias de Alessandro Bavari, minhas e também do próprio Joy Division. Uma colagem para Heart end Soul do disco Closer de 1980. Um grande disco. Uma grande música.

monomanníaco

14/08/2008

Sonho

Alessandr Bavari - Preludio All'incesto tragemelli Monozigoti - fotografia, 147x125 cm - 2003


O sonho meu desta madrugada, encantou-me por seu caráter fantástico, o que é próprio do reino onírico: a Fantasia. Sonhei ser um certo deus de pele azul e pés de lótus. E como fosse eu a atração principal de uma amostra mágica, voei por sobre uma platéia frenética e conhecida. Com um sentimento de potência e vontade, análogo a de um Zaratustra, sentia a extrema presença de deus por todas facetas várias do meu ser, este era aquela presença, era o próprio deus. Voando rente aos expectadores, vi e ouvi, ainda, Dante perguntando a Virgilio:


-O que acontecerá, Virgilio, agora? Gotas de prata ou mel choverão ao peso de aguaceiro do céu? Ou lótus puro e manso?

monomanníaco

07/08/2008

E-zine cafagestagem! e o Fanzine Ponto de Fuga. n° 12#

Desenho da capa de "Caminhos tortuosos", relançado no e-zine Cafagestagem!

O Márcio Cruz teve uma idéia fantástica: o E-zine Cafagestagem! da Abuso produções, saquem parte do editorial: "Um primeiro trabalho ainda experimental que tenta fundir a prática artesanal da confecção de fanzines, com o que pode ser considerado moderno, a edição de imagens. Tudo sendo canalizado para o grande meio de comunicação dos tempos atuais, a internet." Márcio irá disponibiluzar parte do seu acervo de antigos zines de todo o brasil e os editados por ele mesmo. Na primeira edição o e-zine traz o "Caminhos tortuosos", com um texto de Bertold Brech, poemas vários, anúcios, HQ, desenhos e outros baratos afins. Mais uma iniciativa da Abuso Produções.

cofiram o e-zine e suas atualizações
e-zine cafagestagem!: http://cafajestagem.blogspot.com/
abuso produções: http://www.abusoproducoes.gigafoto.com.br/

Capa de Luiz Otávio para o n°12# do Ponto de Fuga.

Me veio como revista, o fanzine n° 12 dos quadrinistas associados do Pará, lançado no abril de 2002 d.c, com capa de Luiz Claudio e também editorial; que teve tiragem de trezentas cópias do zine de CEP 66030-480 do Benguí; número de edição comemorativa dos seus dez anos de praça; sendo "distribuido no meio alternativo de Belém, publicando novas e velhas HQ's, artistas locais, fazendo movimento, levantando a bandeira da arte sequêncial. Quadrinístico." Que teve na contra-capa uma chinesa muito gostosa de autoria de Alex Barry. Número do Zine com seu super-héroi chamado Crânio que estrelava em "Esses humanos"( a estranhesa desta história teve Francinildo no texto e Léo Raic na arte). Que se anunciava numa página assim: " Você gosta de arte? Música? Poesia? Psicodelismo e outros baratos afins? E não sabe onde fica o ponto de Fuga? Então você esta perdido!" Que teve a história de um típico laboratório de ciêntista louco, em um encontro de três típicos ciêntistas loucos: Dr. Mistério, Dr. Sinistro e Dr. Macabro (histórinha esta do Marcelo Marat), faltando apenas o Dr. Fantástico para completar o disparatado jogo de predadores infinitos. Chegando na metade, este gostoso Zine, no número em que lhe falei, traz a aventura desventurosa do Gato Xilef, " acusado de plágio por Crumb e tendo como único jeito a eliminação do personagem( outro plágio!)." Virando a página você tem ( eu intitulo) a difícil empresa do personagem de Chiquinho que contrasta com a seguinte: A terrível história do "Vira-porco", a mais extensa metragem de quadros desta famosa edição, com fotografia histórica em sua outra contra-capa e o resto da turma. Fanzine que trouxe em sua outra capa o elegante cyborg fantástico de Anderson Bezerra, a la Blade Hunner.
O Ponto de Fuga também fez história em Belém. A história dos fanzines, que agora o Márcio Cruz pretende recontar com o seu e-zine.
Muito bem.


Representação

De repente, do nada
o pensamento surge.
E, como que, querendo registrá-lo,
pego papel e caneta
sento-me à mesa
e deslizo a esferográfica preta
na folha ainda virgem.
Signo por signo
formo o meio comunicativo
e me divirto com a liberdade
de poder escrever o que quiser.

poema extraído do zine caminhos tortuosos no e-zine cafagestagem
!

05/08/2008

Julio Cortázar

Este conto foi publicado originalmente em La otra orilla, 1945, com o título original de El hijo del vampiro e é considerado o primeiro conto escrito pelo argentino Julio Cortázar, em 1937. Conto de que pode-se dizer fantástico ou surreal, mas prefiro ficar com sua clara e desvelada faceta de horror.

O filho do vampiro

Provavelmente todos os fantasmas sabiam que Duggu Van era um vampiro. Não o temiam, mas deixavam o caminho livre quando ele saia de sua tumba precisamente à meia-noite e entrava no antigo castelo à procura de seu alimento favorito.

O rosto de Duggu Van não era agradável, a quantidade de sangue ingerido desde sua suposta morte – no ano de 1060, pelas mãos de um menino, novo David armado de uma atiradeira-punhal – havia infiltrado em sua pele opaca a coloração mole das madeiras que ficam por muito tempo debaixo d’água. A única vida naquele rosto eram seus olhos. Olhos fixos na figura de Lady Vanda, adormecida como um bebê na cama que não conhecia mais que seu corpo leve.

Duggu Van caminhava sem fazer ruído, a mescla de vida e morte que formava seu coração se resolvia em qualidades inumanas. Vestido de azul escuro, acompanhado sempre por um silencioso séqüito de perfumes rançosos, o vampiro passeava pelas galerias do castelo buscando depósitos vivos de sangue. A indústria frigorífica o houvera indignado. Lady Vanda, adormecida com a mão sobre os olhos como em premonição do perigo, parecia um bibelô, um terreno propício ou uma cariátide.

Louvável costume de Duggu Van era o de nunca pensar antes da ação. Parado diante da cama, desnudando com a levíssima mão carcomida o corpo da rítmica escultura, a sede de sangue começou a ceder.

Se os vampiros de apaixonam é coisa que na estória permanece oculta. Se houvesse meditado, a condição tradicional haveria detido talvez à beira do amor, limitando-o ao sangue higiênico e vital, porém Lady Vanda não seria para ele uma mera vítima, destinada a uma série de coleções, a beleza irrompia de sua figura ausente lutando, exatamente no meio do espaço que separava ambos os corpos, com a fome.

Sem tempo para perplexidades, ingressou Duggu Van com voracidade estrepitosa no amor, o atroz despertar de Lady Vanda atrasando em um segundo as suas possibilidades de defesa e o falso sonho do desmaio houve de entregá-la, branca luz na noite, ao amante.

Fato é que, de madrugada e antes de ir embora, o vampiro não pode com sua vocação e fez uma pequena sangria no ombro da desvanecida castelhana. Mais tarde, ao pensar naquilo, Duggu Van sustentou para si que as sangrias resultavam muito recomendáveis para os desmaiados. Como em todos os seres, seu pensamento era menos nobre que o simples ato.

No castelo houve congresso de médicos, perícias pouco agradáveis, sessões conjuratórias e anátemas, e, além do mais uma enfermeira inglesa que se chamava Miss Wilkinson e que bebia genebra com uma naturalidade emocionante. Lady Vanda esteve longo tempo entre a vida e a morte (sic). A hipótese de um pesadelo demasiado verdadeiro foi abatida frente a determinadas comprovações oculares; e, além do mais, quando transcorreu um lapso razoável, a dama teve a certeza de que estava grávida.

Portas fechadas com Yale haviam detido as tentativas de Duggu Van. O vampiro tinha que alimentar-se de crianças, de ovelhas, até de – horror! – porcos, mas todo o sangue lhe parecia água ao lado daquele de Lady Vanda. Uma simples associação, da qual não o livrara seu caráter de vampiro, exaltava em sua lembrança o gosto de sangue onde havia nadado, guloso, o peixe de sua língua. Inflexível sua tumba na passagem diurna, era preciso aguardar o canto do galo para pular, desfigurado, louco de fome.

Não havia voltado a ver Lady Vanda, mas seus passos o levavam uma e outra vez à galeria terminada na redonda burla amarela de Yale. Duggu Van estava sensivelmente pior.

Pensava às vezes – horizontal e úmido em seu ninho de pedra – que talvez Lady Vanda teria um filho seu, o amor recrudescia então mais que a fome. Sonhava sua febre com violações de trincos, seqüestros, a construção de uma nova tumba matrimonial de ampla capacidade. O paludismo se escondia nele agora.

O filho crescia, quieto, em Lady Vanda. Uma tarde ouviu Miss Wilkinson gritar para sua senhora. A encontrou pálida, desolada, tocava o ventre coberto ao relento, e dizia:

- É tal qual o pai, é tal qual o pai.

Duggu Van, a ponto de morrer a morte dos vampiros (coisa que por razões compreensíveis o aterrorizava), tinha ainda a débil esperança de que seu filho, acaso possuidor de suas mesmas qualidades de sagacidade e destreza, maquinaria algo para trazer-lhe sua mãe algum dia. Lady Vanda ficava cada dia mais pálida e aérea. Os médicos maldiziam, os tônicos recuavam. E ela, repetindo sempre:

- É tal qual o pai, tal qual o pai.

Miss Wilkinson chegou à conclusão de que o pequeno vampiro sangrava a mãe com a mais refinada das crueldades. Quando os médicos se inteiraram da situação, falou-se de um abordo, plenamente justificável; porém Lady Vanda se negou, virando a cabeça como um ursinho de pelúcia, acariciando com a direita seu ventre ao relento.

- É tal qual o pai – disse-. Tal qual o pai.

O filho de Duggu Van crescia rapidamente. Não apenas ocupava a cavidade que a natureza lhe concedera, mas invadia o resto do corpo de Lady Vanda, que agora podia apenas falar, já não lhe restara sangue; e se havia algum, estava no corpo de seu filho. E quando veio o dia estabelecido para o alumbramento, os médicos disseram que aquele ia ser um parto estranho. Em número de quatro rodearam o leito da parturiente, aguardando que chegasse a meia-noite do trigésimo dia do nono mês do atentado de Duggu Van.

Na galeria, Miss Wilkinson viu aproximar-se uma sombra. Não gritou porque sabia que não ganharia nada com isso, o rosto de Duggu Van não era de provocar risos, a cor terrosa de seu rosto havia se transformando em um relevo uniforme e cardão, em vez de olhos, duas grandes interrogações lacrimejantes se balanceavam sob o cabelo endurecido.

- É absolutamente meu – disse o vampiro com a linguagem caprichosa de sua seita – e ninguém pode interpolar-se entre sua essência e meu carinho. Falava do filho; Miss Wilkinson acalmou-se.

Reunidos em um ângulo do leito, os médicos tratavam de demonstrar uns aos outros que não tinham medo. Passavam a admitir mudanças no corpo de Lady Vanda, sua pele repentinamente escura, as pernas que se enchiam de relevos musculares, o ventre que se achatava suavemente e, com uma naturalidade que parecia quase familiar, o sexo que se transformava no contrário, as mãos que não eram mais as de Lady Vanda. Os médicos sentiam um medo atroz.

Então, quando soaram as doze, o corpo que havia sido Lady Vanda e era agora seu filho se aprumou docemente no leito e estendeu os braços até a porta aberta. Duggu Van entrou no salão, passou frente os médicos sem vê-los e tocou as mãos de seu filho.

Os dois, olhando-se como se se conhecessem desde sempre, saíram pela janela, a cama ligeiramente desarrumada, os médicos balbuciando coisas em torno dela, contemplando sobre as mesas os instrumentos do ofício, a balança para pesar o recémnascido e Miss Wilkinson na porta retorcendo-se as mãos e perguntando, perguntando, perguntando.


Tradução de Cassiano Viana

02/08/2008

Fotografia de Michele Santarsiere

michele santarsiere - subdued confections




.

Poema

Alessandro Bavari -TRE VOYEURS - Fotografia, cm 98 X 55 - 2000


Carta

Minha emoção se reduz

A não me formatar ao deletério.

Malditos poetas e estacas cruzadas

Todos ao inferno.

Ou pior.


Minha solidão não é extraordinária

O homem que é populoso.

Mentiras em muito parecem mito.

Bípede, e falo no meio,

É o escabroso de nossa verdade

Que sigo à risca

A fim do “adapte-me pessoa”.


Na escuridão,

No assalto de teu sobressalto me

Caindo lamúrias.

Não.

Meu molde não mais mudará.

Aponte qualquer direção

Enfrente toda a suposição

Sou um milhão em só Eu.

Mas meu rosto

Que de água se lava

Sempre me verá a mim mesmo

Em passeios alegres

De teu desespero triste.



monomanníaco

30/07/2008

O Corvo - por Emílio de Menezes.

Hoje recebi do Carlos Machado, o número 253 do periódico virtual Poesia Net. Nesta edição veio "O Corvo" em tradução, para o português, de Fernando Pessoa e Machado de Assis. Belissímas traduções estas, com todo o lirismo inerente a língua, tanto de Portugal quanto de Brasil. Mas, como importância e saudosismo de um passado meio ignorado e esquecido(o que são duas ações díspares), publico uma reprodução de "O Corvo" traduzido por Emílio de Menezes em dezoito sonetos. Grande mestre sonetista da segunda metade do século XIX e ínicio do XX, o curitibano Emílio, bigodudo e bonachão poeta, salvaria-se na eternidade apenas por essa grande e singularíssima ação, pois seus sonetos para o poema de outro mestre poeta Poe, apesar de o póroprio Autor-tradutor considerar "uma pálida paráfrase", e apesar de esquecida, é verdade, encontra-se além da memória. Como não bastasse, Emílio de Meneses ainda foi Autor de:


Marcha Fúnebre – sonetos- 1892

Poemas da Morte – 1901

Dies Irae – A Tregédia de Aquidabã – 1906

Poesias – 1909

Últimas Rimas – 1917

Publicações póstumas:

Mortalha – Os deuses em ceroulas – reunião de artigos, org. Mendes Fradique – 1924

Obras reunidas - 1980.


"À memória de Machado de Assis

O inexcedido e inexcedível tradutor do genial poema de Edgar Poe, consagro esta pálida paráfrase que em nada se aproxima e jamais pretendeu aproximar-se da imorredoura tradução feita pelo Mestre dos Mestres."
Emílio de Menezes


O Corvo.(Edgar Allan Poe)

I

Desta amarga existência em certo, amargo dia,
A hora da meia noite, augural e profana.
Eu, de velha doutrina, as páginas relia
Curvo ao peso do sono e da fadiga insana.

Mal do meu pensamento a direção seguia
Por essa hora de horror em que da treva emana
Toda em funda hediondez, desoladora e fria,
Da atra recordação, a atra saudade humana.

Foi assim que senti, do meu triste aposento,
Como um leve sussurro a passar, lento e lento,
E uma leve pancada a bater nos umbrais.

Disse comigo: é alguém que pela noite fora,
Vem, retarda visita, e retarda-se agora...

A bater mansamente à porta, nada mais! ...

II

Ó se o recordo, e bem! numa invernia brava,
O ríspido e glacial Dezembro decorria
E, da lareira ao chão, cada brasa lançava
O supremo fulgor da sua lenta agonia.

E eu a esperar, em vão, a aurora que tardava
Queria, em vão, achar nessa velha teoria
Contida no volume antigo que estudava,
Um consolo sequer à dor que me pungia.

Em vão! consolo, em vão! à minha dor profunda
Em vão! repouso, em vão! à alma que se me inunda
Desta imortal saudade aos prantos imortais.

Porque jamais se esquece, alma consoladora
Como essa que nos céus é chamada Eleonora,

Nome que nunca mais ouvirei, nunca mais!

III

Ante o vago oscilar, indefinido e brando,
Das cortinas que o vento, ao leve, sacudia,
Ia-me o coração sinistramente entrando
O sombrio terror da noite erma e sombria.

Um tétrico pavor que então desconhecia
E que me estrangulava o peito miserando,
A alma, sem compaixão, de dúvidas me enchia
E pouco a pouco foi meu ser avassalando.

Enfim, para volver à ambicionada calma
E a coragem, de novo, amparar-se-me d'alma,
Repetia a mim mesmo estas palavras tais-

"Nada mais é talvez, que retarda visita
Que vem da noite em fora e entrada solicita!
É visita que vem, por certo, nada mais!"

IV

A calma que até aí do peito me fugia
Voltou de novo ao peito e, à coragem primeira,

Não mais vacilações, não mais mente erradia!
Ao estranho rumor falo desta maneira:

"Como nesta ocasião o sono me prendia
E a pancada foi tal, tão leve e tão ligeira,
Que presto não corri; perdoai-me esta ousadia
Dama ou senhor que estais da minha porta à ombreira."

Tão receosamente e vagarosamente
Batestes, que não fui receber-vos contente,
Como hóspede que sois e à minha porta estais.

E assim falando e olhando, escancarei a porta,
Mas só encontrei naquela hora adiantada e morta.
Treva! Treva somente! A treva e nada mais!

V

Cravo os olhos na treva e longamente a escruto,
E a treva é muda e é muda a própria ventania,
E longo tempo assim com o próprio medo luto,
De dúvida e terror povoando a fantasia.

Sonhos que outro mortal, como eu nunca ousaria
Sonhar, me vêm num bando esmagador e bruto.
Profunda calma aquieta a quieta calmaria
Imóvel é o silêncio e s6 o silêncio escuto! ...

A única voz humana, o único som ouvido,
É este nome, em surdina e, a medo, proferido;
É este nome que encerra os meus mortos ideais.

Sou eu quem o profere, eu que o trago na mente,
E um eco a repercutir, repete-o vagamente:
"Eleonora! Eleonora!" É isto e nada mais!

VI

Entrei de novo em ânsia e ardendo a estranho fogo,
Senti que dentro em mim, todo o meu ser ardia.
Ouvi distintamente outra pancada e, logo,
De outra pancada o som mais claro percutia.

A essa nova impressão, volto-me e monologo:
Talvez cousa qualquer me bata à gelosia.
Certamente que sim, pois que ludíbrio e jogo
Do pavor de mim mesmo, eu, certo, não seria!

Fujamos, pois, do medo, ao tenebroso império!
Ânimo, coração! sondemos o mistério,
Se bem que a noite esteja uivando aos vendavais.

E continuando fui: Nada mais foi que o vento,
Não foi mais que o feroz, não foi mais que o violento
Sopro do furacão! Foi isso e nada mais! ...

VII

Abro a janela e vejo entrar, ruidosamente,
Amplas asas batendo e ares de fidalguia,
Um majestoso corvo altivo e irreverente
Como arauto feral da noite erma e bravia.

Sem fazer o menor sinal de cortesia,
Sem um gesto sequer de hesitação prudente,
Como entraria um nobre, alta dama entraria,
Entrou e se alojou despreocupadamente.

Vagaroso e solene, ar indolente e farto,
Exatamente sobre a entrada de meu quarto,
Seguro abrigo achou acima dos portais.

Esta recordação até agora me enerva:
Sobre um pálido busto antigo de Minerva,
Rígido e senhorial, postou-se e nada mais!

VIII

A este pássaro audaz, de ébano a cor das penas,
Grave na compostura e na fisionomia,
Que ao cérebro me dava idéias mais serenas,
Que me acalmava o peito, e a sorrir me induzia.

Voltando-me disse eu: "Tu que te não encenas
De altas cristas ou poupa à negra frontaria,
Velho corvo feral que te mostras apenas,
Certo, não és o vil núncio da covardia.

Corvo! antigo viajor que das regiões da noite
Partiste a procurar um teto que te acoite,
Dize-me tu quais são teus títulos reais!

Qual a pátria ante a qual teu orgulho se ufana?
Quais as tuas regiões na noite plutoniana?...
E o corvo senhorial respondeu: "Nunca mais!..."

IX

Ao perceber assim que ave me compreendia
E que dava resposta a esta pergunta estranha
Que eu, entre espanto e medo, a medo lhe fazia,
Senti, de pasmo, n'a1ma um peso de montanha.

Porque ainda quem tenha uma intuição tamanha
Capaz de perceber o que outrem mal veria,

Certo, não achará neste dédalo um guia
Para o tirar do caos em que a alma se emaranha!

Ninguém verá como eu, a ave negra num busto,
Sem que mova o receio e sem que a mova o susto,
Tranqüila espreguiçando as asas triunfais,

Ouvir a minha voz a lhe indagar o nome
E ante a curiosidade atroz que me consome,
Dizer-me simplesmente a frase: Nunca mais!...

X

A ave hedionda, entretanto, erma, a encimar o busto
Sobre cuja brancura as asas distendia,
Como se essa palavra o sentido mais justo
Tivesse e contivesse a suprema harmonia;

Fosse do pensamento um invólucro augusto
Cheio de precisão e cheio de energia,
Nada mais pronunciou, nem ao menos, a custo,
Uma pluma moveu da plumagem macia.

Eu que continha mal toda a minha saudade,
Apenas murmurei: Amigos de outra idade
Tive, partiram; certo, assim também te vais!

Assim também te irás, mal rompa em luz a aurora!
Esperanças que tive assim fostes embora!
E o corvo repetiu a frase: Nunca mais!. ..

XI

Todo o assombro em meu ser por tremor se anuncia,
Ouvindo a ave augural sem o menor estorvo,
Tal resposta me dar, com tanta analogia
Que inda agora, a lembrá-Ia, eco por eco a sorvo.

Certo a frase aprendeu na triste companhia
De algum mestre infeliz cujo destino torvo,
Da dor o escravizou à fera tirania,
E a sabe assim de cor, o foragido corvo!

Tantas vezes a ouviu. Tão repetidamente
O seu mestre infeliz lha fez vibrar na mente.
Que hoje a profere a rir, como a profere em ais!

De profundis! cruel de uma morta esperança,
Tão tristonhas canções deixaram na lembrança,
Do corvo este estribilho, este só: Nunca mais!...

XII

Como apesar de tudo a calma conseguia
Fazer-me d'alma vir, do lábio, um riso, à tona,
Chegando-me ao portal, do corvo hospedaria,
Sentei-me e recostei-me a uma antiga poltrona.

Frente à frente do corvo, a alma já me sorria
E toda entregue a mim, como quem se abandona,
Busco ansioso indagar que novas me traria
O fúnebre viajor que inda hoje me emociona!

Procuro compreender qual o escondido gozo
Desse vil e sinistro arauto tenebroso
Que em dois termos resume os seus vis cabedais;

Que os seus vis cabedais de ciência e de linguagem
Resume ao exibir-me a tétrica plumagem
Crocitando e grasnando a frase: Nunca mais!...

XIII

Deixo-me após ficar como quem se extasia
Entre alucinação e funda conjetura,
Ante a luz da razão e a névoa da utopia,
Sem nada a me apoiar a mente mal segura.

Nada mais pronunciei, nem um som se me ouvia
E como a um ferro em brasa, a uma horrível tortura,
Da ave ao olhar hostil e à pérfida ironia
N'alma entrou-me o terror que as almas transfigura.

Mas a um torpor de quem vagamente ressona,
Recosto-me ao espaldar dessa velha poltrona
Que eu para ali trouxera em ânsias infernais,

E vejo a luz brilhar sobre o roxo veludo
Em que por tanta vez d'Ela o semblante mudo
Brilhou, mas nunca mais brilhará! Nunca mais!

XIV

Sinto assim a envolver-me uma nuvem de incenso,
Solta de um incensório oculto que pendia
Das invisíveis mãos de anjos que em coro extenso,
Revoavam roçagando a ampla tapeçaria.

Haurindo o ar aromado e, de bálsamo, denso,
De mim para mim mesmo exclamo em gritaria:
Infeliz! Infeliz! Um Deus piedoso e imenso,
Pelos anjos te manda o repouso e a alegria!

Do nepentes é o sumo! Ei-Io, bebe-o! Ei-lo, esquece!
Ele é a seara do bem, do esquecimento a messe!
Nele ouvirás a voz dos gozos celestiais!

É o nepentes ideal que Deus te manda agora!
Bebe-o! Bebe-o olvidando a tua morta Eleonora!
E o corvo crocitou de novo: -Nunca mais!

XV

Pássaro ou Satanás, ave de profecia,
Sejas ave ou Satã, sempre hás de ser profeta!
Venhas do teu inferno ou da brava invernia
Que náufrago te fez, acalma esta alma inquieta.

Já que a noite exigiu, no vôo que te guia,
Que caísses aqui, onde a angústia secreta,
Onde o secreto horror tem teto ou moradia,
Do pouco que disseste o sentido completa!

Diz-me, por quem és, se neste mundo triste,
Existe algum repouso, algum consolo existe
Para estes meus cruéis, sofrimentos mortais!

Existe esse mendaz bálsamo da Judéia
Que, da saudade, a dor nos arranca da idéia?
E o corvo, inda outra vez, repetiu: Nunca mais!

XVI

Profeta ou Satanás, negro ser da desgraça!
Profeta sempre atroz de negra profecia,
Pelo azul deste céu que sobre nós se espaça,
Pelo Deus, todo luz, que em ambos nós radia,

Dize a esta alma sem luz e de dúvidas baça,
Baça de incertidão e de melancolia:
Ser-lhe-á dado abraçar o anjo que entre anjos passa,
E de cujo esplendor hoje o céu se atavia?

Ser-lhe-á dado abraçar a virgem pura e santa,
Virgem casta e piedosa e que os anjos encanta
Com seus gestos de encanto e encantos virginais?

Ser-lhe-á dado abraçar; oh! dize-o sem demora,
A rútila, a radiosa, a radiante Eleonora?
E o corvo rouquejou, roufenho: Nunca mais!

XVII

"Que esta palavra, enfim! de negra profecia
Do teu regresso o início ambicionado seja!
Regressa ao reino teu, à noite que te envia,
A noite plutoniana, essa que em ti negreja!

Volve! Cala essa voz que me fere e angustia!
Reentra no temporal, volve à tua peleja
De lá fora e não fique uma só pluma esquia
Neste chão, de tua vil plumagem malfazeja!

Não quero que de ti uma reminiscência
Fique nesta de dor, sagrada residência,
Sobre a qual distendeste as asas funerais!

Vai-te! Deixa da deusa a face casta e branca!
Arranca-me do seio as garras vis, arranca!"
E o corvo crocitou de novo: Nunca mais!

XVIII

E o corvo permanece em perpétua estadia,
Sinistro a repousar, do mármore, à brancura.
Quem o contempla assim pela verdade jura
Que algum sonho feroz seu aspecto anuncia.

É um demônio a sonhar sonhos que o inferno cria
E que lhe enrijam mais a rija catadura,
Talo fulgor do olhar que os olhos lhe alumia
E com que a própria sombra ele sondar procura.

Essa sombra que a luz da lâmpada suspensa
Faz refletir no chão, qual atra nuvem densa,
No mesmo chão negreja em linhas sepulcrais:

E desse âmbito negro, esse âmbito de sombra,
Minha alma que da dor da saudade se assombra,
Nunca mais sairá! Nunca mais! Nunca mais!

Obra de referência:
Obra Reunida, de Emílio de Menezes,
Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1980.


26/07/2008

TITO IGLESIAS

Um naco onomatopaico, inspirado no som da máquina de modelar próteses poéticas.*

Aquela Vénus de Milo tinha a boca cheia de rimas inaudíveis e de invisíveis grainhas de uva. Porque as cuspia - a cada cinzelamento do nervoso escultor - de braços não carecia... Assim, eram os decepados braços cúmplices do vôo das grainhas. E também, antes e após cada golpe, se escutavam, ritmicamente, as escondidas rimas.

Mas por que
esborrachei eu cinco formigas sobre o branco tampo marmóreo por onde corriam? E por que só essas cinco, no ziguezague do acuso, na laboriosa fila? Teria ocorrido pelo contraste da cor, ou pela sua irritante mobilidade perante a sempre sólida e fria impassibilidade do mármore? Mistérios numéricos ocultos no interior da mente e acionando os inconstantes dedos do instinto...

Absortos, alguns filósofos gregos limpavam os seus dentes incisivos, à sombra do Partenon, com os palitos obsessivos das ideias, Mas não os caninos, para os quais reservavam, coerentes, um osso hedonista,.. Criação consiste - ó bárbaros e passivos povos, espectadores de TV - em palitar os dentes brancos de uma página em branco, na brancura de um livro, com ideias agudas! E, como exemplo, em umedecer e plantar, no nada, as fecundas sementes caídas da imaginação de lusos surrealistas (Cesariny, Cruzeiro Seixas, António Maria Lisboa & Poucos Mais, pois vários outros apenas embusteiros flibusteiros terão sido!).

Um urso pesado, do porte de um granadeiro, calcou, para sempre, há muitos lustros, a débil planta jovem que seria o primeiro pinheiro de Natal, da idade adulta, de minha tia. Tia tristíssima para toda a vida, sabedora que a pata do passado esmagara o que seria a sua verde arvorezinha privativ
a. E tia para sempre séria, formando docilmente fila para a sua ração diária de melancolia.

Mas não sejamos torrenciais, neste "cadavre exquis", ó meu irmão siamês! No parágrafo que a mim me cabe, a seguir, tornar-me-eí sintético: sobre a alvura de uma calvície (definição de cogumelo), eis um chapéu-de-chuva conservadoramente preto.

Ao entardecer, ratos ociosos vinham às amuradas do sótão e às bibliotecas municipais de Lisboa, após consultar e roer as páginas amarelas, tocar violino. Rato (mas só mentalmente) rima bem com o verbo roer. E aqueles ratos sábios roíam cordas até se fartarem, mas não eram os ratos do rei da Rússia. Mas certa aluna - aquela mulher jovem e branca, de cabelos negros - era qual violino, ondulado pela volúpia, que o velho professor de música
não sabia tocar. Nem roer. Autocrítica (apalpando o tecido de veludo do verbo tocar): com algum requinte linguístico, tanger soa mais canoramente. E é mais peculiar de violino. Mesmo para quem só, como eu, efectua, como artífice, ninhego e galego, simples obturações de poemas antigos. Mas que nunca pretende ser articida.

Naquele cantão com brasão, em todos os vigésimos sextos dias de cad
a mês, atrás de um biombo pudico permitiam locar bombo sobre o chapéu-de-coco do Presidente (com todo o respeito) da República. Bosta deveria ser escrita sempre com letra maiúscula! - digam-no à míope, ou melhor distinguindo, míope ratazana Eustáquia, que circula pela Baixa com pretensões de jornalista. E o vocábulo ratazana, no meu entender, por seu asqueroso pêlo molhado, próprio dos esgotos ulissiponenses (nunca uma cloaca atraiu para suas águas adjetivo de tamanho esmero) bem poderia ser acentuado. Assim: ratazana, perfidamente esdrúxula... Zénite, zircónio, zoófago e zoógrafo são palavras acentuadas pelo z, ou pelo acento ngudo? E, perante tal modo de zunir, ou de zurrar, melhor não seria "azentuadas"? - interrogo-me, com modéstia, meditando na minha tardia arte de bem inventar a toda a sela.

Surrealismo, ó académicos de peludas mã
os vendadas e de brancos joelhos ocultos, nãoé, admitam-no, piromania! E, num arquipélago próximo, seria Gauguin um doente no percurso finnl? Ou, afinal, não um paciente mas um pincel? Pincel bebendo, como um cavalo, na sua paleta. Ou pincel molhado em cores quentes? Ó puristas, com vossas gigantescas borrachas de apagar erros ortográficos do proletariado, debaixo do braço! As minhas sinistras assdciações de ideias forçaram-me a fundar, na Polinésta, a Associação dos Leprosos Mentirosos...

Continuo marchando, a passo de ganso, obliquamente, pelo passeio, sobraçando uma régua compridíssima, em direção à rubra frente de batalha. Mas que farei eu com esta verde boina de pára-quedísta sobre o crânio, senão agarrar-me a ela - cheia já de ar - no momento da queda? E não quero proteger-me, eu juro, com as boinas das idéias feitas, nem arrastar-me, coxeando, pelas bermas da literatura, com o auxilio das muletas dos lugares-comuns. Mas, na verdade, prosseguirei eu, solitário, embora a duas mãos, escrevendo este texto sem policiamento? - o potente motor da motocicleta do surrealismo. E não constituirá já esta íntima interrogação -xinquiridora - um súbito desvio do puro jorro de criação artística?

Espiritualmente, eu, que jamais fui a Buenos Aires, apesar da minha permanência e proximidade no Rio Grande do Sul, ia conduzindo pelo braço Jorge Luís Borges (que também - tal como eu - não logrou um Nobel), ao longo da Calle Florida, muy florida. Florida qual aquela longínqua parede de subúrbio, ensanguentada por palavrões. E também por bolas e riscos obscenos. De quando em vez, tropeçávamos nas consoantes, chocávamos contra a afiada esquina das sílabas, onde havia uma barbearia. Para alardearmos descontracção e confiança, íamos Jorge Luís e eu assobiando canções castiças, na penumbra. Não queríamos admitir que ambos estávamos cegos. Pretendíamos, no nosso íntimo, ser o guia um do outro... E que canções continuávamos assobiando pelos ruas e praças de Buenos Aires, inspirada e sentidamente, mesmo sem enxergar, no trajecto, o velho armazém rosado? E não será óbvio? Por Buenos Aires adiante... Não adivinha, leitor circunspecto? Mas que se poderia assobiar na famosa cidade do Rio da Prato senão czardas!

As czardas do escultor dinamarquês Mário de Sá-Carneirol (E como vos deslumbrará esta minha policultura). Moral do naco, mesmo sem molho de onomatopéia: a po
licultura - que é policresta - produz-me polifagia...

E Camões cogitava, na cidade do Castelo de S. Jorge, numa estátua-ventilador que, sempre que folheassem vertiginosamente "Os Lusíadas", perante as desinteressadas e sonolentas pálpebras reais, varresse, em torno, os inúmeros imbecis da corte... Isto, antes de o poeta ter estátua e de ser praça...

Antes que se sorteassem, entre as ossadas anónimas, aquelas a transferir para o Mosteiro dos Jerónimos. E que se apunhalassem, em suas carteiras de madeira, indefesos jovens, virtuais amantes de poesia. Obrigando-os a retalhar, anatomicamente, estrofes inteiras em orações gramaticais. Como que aproveitando aquele pulcro corpo de poesia, estendido já sobre o mármore da imortalidade, para efectuar a sua autópsia. Antes que muitas figuras históricas de Portugal fossem pintalgadas de vermelho e outras cores, após Abril, pelos anões da política a da revolução. Parcialmente cego, devido a certeiro golpe desferido pelo materialismo dos seus contemporâneos, pedia Luís de Camões esmola no Chiado, junto à Leitaria Garrett, ambos nomes de poetas posteriores, alimentados pelos fartos seios dos anacronismos...

Hoje, loja trespassada, apenas uma "boutique", onde se entra e não se permanece. Ou um belo sarcófago luso, repleto de recordações dos ex-frequentadores, onde a memória deles permanece envolta em faixas de branco linho e perfumada por desconhecidas ervas aromáticas. Encerrada há muitos anos (lia-se antes, imodestamente, num letreiro: "Esmerado serviço de chás e torradas"), mas, oniricamente, propriedade minha e do Vitorino, o qual muito ali namorou (então, quase ninguém sabia que éramos poeta e cantor). Propriedade também dos alunos de Belas Artes, de Lisboa, hoje pintores conhecidos, como o Batarda e vários mais, que, antes do naufrágio solar, se agarravam à jangada de uma torrada com manteiga.

E quedo permanecia, quase sempre, em sua mesa o João das Baratas - o doutrinador da "Garrett", com sua tímida atração por miúdas e seu humor subtilíssimo. Denominado "das Baratas", porquanto dedicava 0,5% do seu tempo de ócio e de riso à nobre e incompreendida arte de desinfestar casas alheias com um insecticida eficaz contra baratas, cuja fórmula herdara do pai.

"Depois das três da tarde" - insinuavam-lhe sobre as chávenas - "todas as baratas são pardas..."

Camões passava, de novo, à porta, vindo da Rua Ivens. E suplicava: "Troco um soneto por um copo de leite... Ou uma estrofe por uma torrada!"


(*)Publicado em: Revista Bresiliense de Letras, n° 14, Brasilia, 1995.

Qualquer coisa sobre o Autor:
Tito Iglesias, é um poeta espanhol que escreve em português, residente em Paço d'Arcos (Lisboa), de teor surrealista, responsável pela divulgação de bons poetas Portugueses aqui no Brasil, onde morou por dezessete anos. Membro da Academia Brasiliense de Letras.

imagens: monomanníaco

25/07/2008

Minimalismo.

Nuno Viegas - A rotina do engomadinho, 2001, 250 x 200 cm


Na Segunda-feira, Ele acordou e depois à Mulher. Tomou banho e café. Vestiu o uniforme, alguns beijinhos: "Tchau amor, até à noite, te amo, tchau." A Mulher:"tchau amor, até à noite, te amo, tchau amor."

Na terça, Ele e Mulher acordaram juntos, sempre no horário, eterno horário, tomaram banho e café, Ele vestiu o uniforme, beijinhos Nela:"Tchau amor, até à noite, te amo, tchau amor". Ela: "Tchau amor, até à noite tchau".

Na quarta, Ela acordou e disse:"Vamo amor!". Ele levantou, tomou banho e café e cagou e vestiu seu uniforme, alguns beijinhos e falou:"Tchau amor, me liga, tchau amor". "Sua mulher", como gostava de dizer, disse: "Tchau amor, te ligo, te amo”.

Na Quinta, Ele pulou num acordar, chamou a Mulher, tomou banho e depois café e comeu e mijou e cagou, se arrumou, o uniforme de sempre, abraçou e disse:"Tchau meu amor, eu te amo, tchau", ao que Ela:"Tchau meu amor, eu te amo, tchau".

Na Sexta, logo cedo levantou, chamou Ela que não quis levantar, e Ele, sozinho, se banhou cagou mijou, sem café se arrumou, disse:"Tchau amor", e saiu pela porta do sempre.
No Sábado, Ela correu para o café e Ele ao banheiro, onde cagou cagou cagou e mais um banho antes do café, do uniforme sempre limpo e do:"Tchau amor", ao que lhe responderam:"Tchau, te amo, tchau".

No domingo não souberam o que fazer.
monomanníaco

24/07/2008

ÂMBAR GRIS - Um conto do Mestre Rubem Fonseca.


Como todos sabem

o animal mais inteligente

que existe é o cachalote.

Ele não vai à lua porque

apenas quer ser feliz

e também (confesso) não tem

o dedo polegar.

Mas basta ouvir uma só vez
a Nona de Beethoven,

ou as obras completas de Lennon &

McCartney,

ou o Ulisses,
ou os elementos de bibliologia,
que sua mente computaplexa

armazena tudo e reproduz nota por

nota, palavra por

palavra, a qualquer momento,
pelo resto da vida.
"Professor Lilly,
V.Sa. que é o maior neurofisiologista
especialista em

physeter macrocephalus,
quem é mais inteligente:

o homem ou o cachalote?"

"O cachalote, evidentemente."
"Professor Lilli,
V. Sa. que é outrossim
especialista em

delphinus delphis,

quem é mais inteligente,
é o homem ou o golfinho?"
"Empatam. Mas os astutos maneirismos,

truques e tricas do golfinho

levam-me a supor,
que o QI do golfinho

seja um pouco superior.
Permita-me que chame"

- continua o doutor Lilly-
"minha jovem (e linda)
assistente, a doutora

Margaret Howe, que viveu com
um golfinho chamado Peter,
durante dois anos e meio."

"Nossa vida sexual foi um fracasso",
diz a doutora Margaret,
"ele queria
eu queria.
Peter inclusive estava aprendendo inglês,
mas eu peguei uma pneumonia
no fundo da nossa piscina escura,
e sem mais nem menos,
acabamos."
"De qualquer forma",

diz o doutor Lilly,
"a comunicação interespécies
já é um fato."

Rubem Fonseca - Lúcia McCartney - Cia das Letras - pg 97/100

21/07/2008

Poesia surrealista. E da receita o cozido.



Na revista, acho que eletrônica, Wave, acho que mensal, no dia dezenove do corrente, saiu artigo sobre Breton e sua importância para a arte do século XX. Relevante tudo o que o editor-chefe da publicação expõe sobre surrealismo em poesia e artes plásticas e manifestos, e a influência de Breton sobre todos os que aderiram ao movimento, desde o início ou mais tardiamente.

O interessante, e afirmativo no artigo, é o fato de mostrar que uma grande e grossa parte de críticos (impoetas) depositam todos os créditos apenas a... Salvador Dalí. A revista aponta para que Dalí é tido, pelo público, como o grande surrealista de todos os tempos, mais que Breton. Seria pela difusão da informação, anos atrás, de que surrealismo é um estilo de pintura? Pelo menos aqui no Brasil era assim que se via o surrealismo, como uma atividade apenas pictórica (claro que esse entendimento era o da grande parte inculta de toda a crítica nacional e, graças a Abraxas, não pertencia, este entendimento, a críticos-poetas do século XX). "Sem Breton não existiria surrealismo!" é a afirmação que faz o artigo ao leitor e a si próprio. E assim encerra a questão de quem é quem.

Através dos difusores, quase undergrouds, do surrealismo no Brasil, como Sergio Lima, Claudio Willer, Roberto Piva, Rodrigo de Haro e outros, fomos tendo conhecimento de grande parte da história do surrealismo, e conseguimos afirmar, hoje, que o surrealismo jamais morreu, porém não foi eterno. Surgiu, sim, com Breton, num período pouco anterior a 1924, ano da exposição editada de suas idéias e começo da influência do surrealismo, como movimento, em outras vertentes artísticas que não apenas a literatura.


Incorre, compromete-se, comete o erro mesmo, o artigo da Revista Wave, ao afirmar que: “... é muito simples cozinhar uma poesia surrealista”, e ainda sugere ingredientes para o "cozido"! E afirma, ainda, que por não se relacionar com os meios incultos ("não acadêmico", ele diz) Breton não tem importância nenhuma no Brasil. Só lembrando que foi exatamente fora do academicismo que o surrealismo começou a ser divulgado do Brasil e que o academicismo só se voltou a estudá-lo de forma acadêmica nos anos noventa, e que apenas hoje o meio acadêmico chega a novas interpretações do que é o surrealismo no mundo inteiro.

Comparar a estranha experiência da produção de um poema, surrealista ou não, a uma receita de cozido, e sugerir que esta é parecidíssima a construção de uma escrita automática, parece piada disparatosa que só tem espaço pelos miseráveis e insuportáveis orkut's da vida enlatada de quem tem pouca ou nenhuma imaginação.
A poesia surrealista nunca foi, não é e nunca será (afirmo!) apenas modalidade de escrita automática ou criações de cadáveres delicados a torto e a direito. Um movimento artístico jamais será apenas a reunião de pessoas voltadas à arte. É preciso que haja uma produção artística. Reuniões só se forem de Artes para então proclamar um movimento e suas metas, mesmo que estas últimas sejam nem uma.

A receita da Revista Wave só serve à criação inútil e preguiçosa de um palavrório horrendo que comumente encontra-se editado por aí como não-prosa, onde por trás há uma miserável algaravia, e é chamada poesia. Pois afirma que a produção de um poema surrealista é apenas um fluxo de idéias considerado até onde a vontade mandar, e que pode ser executado com ingredientes vulgarmente encontrados. Imaginem se assim fosse quantos poetas surrealistas maravilhosos teríamos!

Poesia surrealista é antes um olhar que escritura. Poesia surrealista, se tiver processo, ele é imagético. Poesia surrealista é perceber o não-ordinário inerente à vida/vidas que nos cerca/m. Poesia surrealista é percepção. Poesia surrealista é erudição. Poesia surrealista é quando um homem meio-morto encontra-se encostado paciente em um encontro ou intercessão entre uma farmácia e funerária e o poeta surrealista daí faz um poema. É referêncial. É um enxergar mundo não-convencional, e ainda assim submete-la, a poesia surrealista, ao convencionalismo do que se chama arte. E tudo isso não é, não pode, não quer ser fácil, como receita de coisa qualquer. Isto nem é receita. É a imagem que diz o poema surrealista ou não.


monomanníaco


imagens de Jeffrey Michel Harp.


O link da revista Wave e seu artigo:

http://www.revistawave.com/blog/index.php/2008/07/19/traido-pela-historia/

A cabana - de Max Martins por Ele mesmo.



É prciso dizer-lhe
que tua casa é segura
Que há forças no interior
nas vigas do telhado
E que atravssarás o pântano
penetrante e etéreo
E que tens uma esteira
E que tua casa não é lugar de ficar
mas de ter de onde se ir

Max Martins

20/07/2008

POEMA

Toda a venturosa sorte de teu seio

Faz-me ver

Em Ti e em Mim

Tudo o que provocarei

Em Mim e em Ti

Tudo o que provocarei

Em todos os opostos

Sol e Lua

Terra e Céu

Faz-me ver

As peças que pregarei

No escabroso ciclo dos dias

E o escarcéu

Em suma o dia

Em que provocarei

Toda a eternidade

Para que morramos

No seio de

Toda a venturosa sorte de Teu seio


monomanníaco

19/07/2008

Nota de rodapé para UIVO - Allen Guinsberg


Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo!Santo! Santo! Santo! Santo! Santo!Santo! Santo! Santo! Santo!

O mundo é santo! A alma é santa! A pele é santa! O nariz é santo! A língua e o caralho e a mão e o cú são santos!

Tudo é santo! Todos são santos! Todo lugar é santo! todo dia é eternidade! Todo mundo é um anjo!


O vagabundo é tão santo quanto o serafim! O louco é tão santo quanto você minha alma é santa!


A máquina de escrever é santa o poema é santo a voz é santa os ouvintes são santos o êxtase é santo!


Santo Peter santo Allen santo Solomon santo Luciensanto Kerouac santo Hunke santo Burroughssanto Cassady santos os mendigos desconhecidossofredores e fodidos santos os horrendosanjos humanos!

Santa minha mãe no asilo de loucos! Santos os caralhos dos vovôs de Kansas!


Santo o saxofone que geme! Santo o apocalipse bop! Santos a banda de jazz marijuana hipsters paz & droga & sonhos!

Santa a solidão dos arranha-céus e calçamentos! Santas as cafeterias cheia de milhões! Santo o misterioso rio de lágrimas sob as ruas!

Santo o solitário Jagarnata! Santo o enorme cordeiro da classe média! Santos os pastores loucos da rebelião! Quem saca que Los Angeles é Los Angeles!

Santo Nova York! Santo San Francisco Santo Poeria& Seattle Santo Paris Santo Tânger Santo Moscou Santo Istambul!

Santo o tempo na eternidade santa a eternidade no tempo santos os despertadores no espaço santa a quarta dimensão santa a quinta internacional santo o anjo em Moloch!

Santo o mar santo o deserto santa a ferrovia santa a locomotiva santas as visões santas as alucinações santos os milagres santo o globo ocular santo o abismo!

Santo perdão! Misericórdia! Caridade! Fé! Santo! Nossos! corpos! Sofrendo! magnanimidade!


Santa a sobrenatural extra brilhante inteligente bondade Da alma!


Tradução de Claudio Willer.

Coleção L&PM Pocket, vol. 188/pg. 46-47. 2001.

17/07/2008

Le città invisibili


Le città invisibili
por Federica Castagna e Romina Sposari.



Le città invisibili

A cidade é um rio que perdeu seu nome.

É nela que vivo cuspindo a chalaça dos meus dias e jeitos.
Em bebedeiras infindas onde o tempo não chega.
Nem mexe.
Ela vive em sua desairragada vida desaumada .
Vive e me mata.
Não saberei: Quem Ela?
Só sei de seu vestido bruxuleante.
Sapatos da moda em retrô.
Acessórios mil. melindrosos.
Peteados cabelos arranjados por aí.
Não.
Não é decadente.
O contrário.
É quaquer coisa de guerreira e mito.
Mata e morre por qualquer um dos seus.
Sabe o homem que tem.
A griffe que veste.
Sabe até de seu pivete.
Me mantem por interesse.
Não se sabe poeta.

Por isso escolheu-me em cantá-la verso e prosa e como sabe da poesia toda a história é excelente crítica e meticulosa só não sabe criar versos pois a caneta não lhe cabe nas mãos além do mais é muda não pára só cresce consegue abolir o acaso esse é o seu fim destruir improvisos lhe cabe trabalho é comum e é normal é uma cidade-criança mas promiscua é puta e trabalha duro a sustentar seus filhos carentes caretas e orfãos perdeu-se de sua mãe Helena ainda muito nova nunca foi a escola e casou-se aos onze teve filhos aos seis e perdeu o cabaço aos três anos de idade nunca soube quem lhe registrou: Cidade.

Vive ao contrário e em frente
É comum que alguém leve pau
Se fuder na cidade é normal
Essa é sua uni corrente


Saberei, pasmo, também, lhe contar
Que Ela sangra em toda a gente
Vez por outra até Eu-crente
Me ponho certo que irá me salvar

É quando vejo, vida desaumada,
tenebrosa forca que a diaba enluarada
Me prepara em vingança comum

Ou vala de lama cavada em qualquer
pedaço de seu pedaço, Ela é mulher,
de lama de seu bairro, o que quiser.


A CIDADE É UM RIO QUE PERDEU SEU NOME E FIM.

monomanníaco

09/07/2008

Arthur Rimbaud. No inferno.


Adeus, 1873

Já é outono! — Mas por que lamentar um eterno sol, se somos levados à descoberta da claridade divina — longe das pessoas que morrem sobre as estações.

O outono. Nosso barco levantado por brumas paradas vira para o porto da miséria, a cidade enorme de céu manchado de fogo e lama. Ah! os trapos podres, o pão encharcado de chuva, a embriaguez, os mil amores que me crucificaram! Será que nunca acabará este vampiro rei de milhões de almas e corpos mortos e que serão julgados! Me revejo com a pele roída pelo lodo e pela peste, vermes nos cabelos e nos sovacos e vermes maiores ainda no coração, deitado entre desconhecidos sem idade, sem sentimento... Poderia ter morrido lá... Horrível lembrança! Detesto a miséria.

E temo o inverno porque é a estação do conforto!

— As vezes vejo no céu praias sem fim cobertas de brancas nações alegres. Um grande navio de ouro, acima de mim, agita suas bandeiras multicolores sob as brisas da manhã. Criei todas as festas, todos os triunfos, todos os dramas. Tentei inventar novas flores, novos astros, novas carnes, novas línguas. Pensei adquirir poderes sobrenaturais. Pois é! Devo enterrar minha imaginação e minhas lembranças! Uma bela glória de artista e contador levada embora!

Eu! eu que me disse mago ou anjo, dispensado de toda moral, sou devolvido ao chão, com um dever a procurar, e a realidade rugosa a abraçar! Camponês!

Estarei enganado? A caridade seria irmã da morte para mim? Enfim, pedirei perdão por ter-me alimentado de mentira. E vamos. Mas nenhuma mão amiga! E onde pedir o socorro?

Sim, a nova hora é pelo menos muito severa.

Pois posso dizer que a vitória me é dada: os rangeres de dentes, os assobios de fogo, os suspiros pestilentos se atenuam. Todas as lembranças imundas se apagam. Meus últimos lamentos fogem — ciúmes pelos mendigos, bandidos, os amigos da morte, os atrasados de toda espécie. — Danados, se eu me vingasse!

É preciso ser absolutamente moderno.

Nada de cânticos: manter o passo que foi ganho. Dura noite! O sangue seco fuma na minha face, e não tenho nada atrás de mim a não ser este horrível arbusto!... A luta espiritual é tão brutal quanto a batalha dos homens; mas a visão da justiça é prazer só de Deus.

No entanto é a vigília. Vamos receber todos os fluxos de vigor e ternura verdadeira. E na aurora, armados de uma ardente paciência, entraremos nas esplêndidas cidades.

Por que falava de mão amiga! Uma bela vantagem é que posso rir dos velhos amores mentirosos, e cobrir de vergonha estes casais da mentira — eu vi o inferno das mulheres lá; — e me será permitido possuir a verdade numa alma e num corpo.

Último texto do livro Une saison en enfer, Abril/Agosto-1893. Tradução Daniel Fresnot.

Verlaine: O que você acha de minha esposa?

Rimbaud: Não sei. O que você acha dela?

Verlaine: Ela ainda é muito criança.

Rimbaud: Eu também.

(pausa)

Verlaine: (para o garçom) Dois absintos...

Rimbaud: Esse seu último livro...

Verlaine: Sim...

Rimbaud: ...não é lá essas coisas.

Verlaine: Não está falando sério.

Rimbaud: Puro lixo pré-matrimonial.

Verlaine: Não. São poemas de amor. Muita gente gostou.

Rimbaud: Não passam de uma mentira.

Verlaine: Não são uma mentira, eu amo minha mulher.

Rimbaud: Amor...

Verlaine: Sim.

Rimbaud: Isso não existe.

Verlaine: O que quer dizer?

Rimbaud: O que une as famílias e os casais, isto não é amor. É burrice, egoísmo, ou medo. O amor não existe.

Verlaine: Você está enganado.

Rimbaud: O interesse próprio existe, a união para proveitos pessoais existe, a complacência existe. Não o amor. O amor tem de ser reinventado.

Verlaine: Eu amo o corpo dela.

Rimbaud: Há outros corpos.

Verlaine: Não. Eu amo o corpo de Matilde.

Rimbaud: E a alma não?

Verlaine: Acho mais importante amar o corpo do que amar a alma, afinal a alma pode ser imortal. Terei muito tempo para a alma, enquanto a carne...

Rimbaud: (roncando)

Verlaine: O que foi? É o meu amor pela carne que me mantém fiel.

Rimbaud: Fiel. O que quer dizer com isso?

Verlaine: Sou fiel a todos a quem amei. Se amei um dia, amarei para sempre...e quando estou sozinho à noite ou pela manhã, posso fechar meus olhos e celebrar a todos.

Rimbaud: Isto não é fidelidade. É nostalgia. Não espere fidelidade de mim.

Verlaine: Aaah... por que está tão azedo comigo?

Rimbaud: Porque você precisa disso.

Verlaine: Já não basta saber que amo você mais do que ninguém? E que sempre amarei?

Rimbaud: Ah, cale essa boca, seu bêbado choramingas.

Verlaine: Diga que me ama.

Rimbaud: Ah, pelo amor de Deus.

Verlaine: Por favor, é importante para mim, diga...

Rimbaud: Você sabe que gosto de você.

Verlaine: Fiz umas compras hoje de manhã. Comprei um revólver.

Rimbaud: E pra quê?

Verlaine: Para você, para mim, para todos.

Rimbaud: Espero que tenha comprado munição suficiente pra todo mundo.
Diálogo extraído do roteiro de Total Eclipse, 1995. Filme dirigido pela Polonesa Agnieszka Holland e estrelado por Leonardo Di Caprio, que fez o papel de Rimbaud.

07/07/2008

Alessandro Zir


Pleif Mapa - Capítulo 1

Eu acho que você nasceu mais próximo das 19 horas, ela disse.

Você nasceu na Terra na época em que ela foi incendiada, pensou. Por isso, é que traz consigo essa imagem do deserto. Você é o deserto. Seca, afastada e definida: olhava para a ruga q ele tinha abaixo do olho esquerdo. Teria sido proposital? Não que tivesse sido feita artificiosamente, mas uma transformação concreta do olho, do seu poder de análise. A recusa em se aproximar ou dissolver.

Na época ainda não se sabia se o apocalipse viria pela água ou pelo fogo, ele respondeu. E foi por isso que se decidiu incendiar a água. Consumiu-se o dilúvio. Teriam todos morrido se não fosse isso – eu não estaria aqui com você.

Ela se afastou da mão dele que avançava para ela para impedir a aproximação dissolvente. E se fosse mesmo o seu filho? Poderiam de fato se aliar? Mas contra o que? Bom, muita coisa poderia ainda ser evitada.

A visão dela deitada de lado na cama, o ombro recuando, fez o desejo dele latejar. Ele avançou a mão como se fosse natural empurrá-la. Estava seguro, não corria nenhum risco. Não disse nem diria mais nada. Veria as cicatrizes quando ela estivesse nua. Faria com que elas ardessem, queimando-as de novo uma por uma.

Sentia prazer naquilo? Se contorcia, espalhada pela pele e as sacudidas bruscas. O scanner iria de qualquer forma identificá-la. Era o trabalho dele. Cinco a seis seções e tudo estaria resolvido.

Ele sorriu. Teria a prova de que precisava. Depois de todo o trabalho investido no laboratório. Só estava faltando encontrá-la. E ela apareceu quando ele estava pronto. Já via o resultado construído no gráfico. Um risco preto no gráfico, feito com lápis-carvão.

continua...




Alessandro Zir : É Professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Caxias do Sul (Brasil). Bacharel em Filosofia (UFRGS/Brasil), Bacharel em Comunicação Social (PUCRS/Brasil) e Mestre em Psicologia Social e Institucional (UFRGS/Brasil). Membro do Grupo Interdisciplinar em Filosofia e História das Ciências do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados da UFRGS. Actualmente no Canadá, a preparar o doutoramento.

06/07/2008

No Bairro...poesia marginal


No bairro todos os poetas são cegos. São todos uns fedegosos, mirrados que, claudicando sobre suas muletas tortas, guiam-se por cães que lhes mordem as pernas para lamberem as feridas. Estão sempre caminhando, como alegoricamente, por sujas marginais de uns canais que drenam a água podre da cidade. Nessas marginais, os poetas do bairro, recitam seus dramas, gritam suas odes e cospem suntuosas palavras por entre cacos de dentes de suas bocas tortas; palavras que fazem calar alguns poucos passantes que acham mesmo penoso aproximarem-se e meterem-se à sombra do Poeta da marginal. A palavra do poeta da margem, quando dita com furor extremo e inflamado, desagrada a populaça do bairro, que logo sai catando pau e pedra para massacrar o rapsodo. Então, a carne do tal poeta marginal é disputada com delírio por outros marginais que entendem nada de poesia.


monomanníaco

03/07/2008

Salvador Dali e Philipe Halsman.

Salvador Dali e Philipe Halsman firmaram parceria ainda na primeira metade do século XX, década de 40, período em que o surrealismo, em artes de pintura, conseguiu seu auge. O delírio de Dali e sua obsessão pela imagem, traduziam exatamente as propostas da poesia surrealista de interpretação de imagens e poetização do era visto. Dali atômico é a imagem mais conhecida desta muito feliz parceria do fotógrafo com o artista dandi. É de se imaginar o trabalho que tiveram para montar este instantâneo, num período em que o único recurso que se tinha era a fotografia mecânica. Mas nem por isso a mútua colaboração ficou apenas nesta imagem, pois a dupla ainda realizou diversos trabalhos juntos, claro, sempre com o surrealismo em pauta.


In Voluptas Mors

Midsummer Night's Mare

O sentido da vanguarda. Por Antonio Cícero.

O seguinte artigo foi publicado na coluna de Antonio Cícero, 'Ilustrada' da Folha de São Paulo, no dia 3 de maio 2008, e no dia seguinte em seu blog ACONTECIMENTOS.


Não se deve ignorar o sentido metafórico da palavra "vanguarda". No âmbito militar em que se origina, ela designa o dispositivo avançado de um exército ou de uma frota, isto é, o destacamento que, indo à frente, indica ou abre caminho para o grosso do Exército ou da frota. Analogamente, chamam-se de “vanguarda” os artistas que, estando à frente dos demais, indicam ou abrem os caminhos que serão eventualmente tomados por estes.


Historicamente, a vanguarda não só se atribuiu o papel de indicar ou abrir caminhos, mas efetivamente o cumpriu. Por exemplo, antes da eclosão das vanguardas, as formas poéticas mais tradicionais em uso nas línguas modernas haviam sido fetichizadas. Supunha-se que o uso de métrica ou de rima ou o emprego de alguma das diversas formas fixas então catalogadas (tais quais o soneto, a balada e a sextina) fosse necessário para a produção de um bom poema. Desse modo, consideravam-se naturais determinadas formas convencionais.


Pois bem: ao produzir autênticos poemas sem o emprego dessas formas, as vanguardas mostraram, em primeiro lugar, o caráter convencional de tais formas; em segundo lugar, mostraram que a poesia ou o poético não se encontram prêt-à-porter, à disposição do poeta, nestas ou naquelas formas fixas; em terceiro lugar, mostraram que a poesia não é necessariamente incompatível com nenhuma forma determinada: que é possível inventar novas formas para ela.


Assim, ao desfetichizar as formas poéticas tradicionais, as vanguardas abriram novas possibilidades para todos os poetas. E ressalto que, apesar da retórica da "morte", da "destruição", do "fim" das formas poéticas que a vanguarda mostrou serem relativas, a verdade é que nenhuma das formas convencionais jamais deixou de existir ou de continuar a ser realizada, em maior ou menor grau. As formas existentes podem ser relativizadas, mas não morrem.


No meu artigo anterior, observei que, no seu "Plano-Piloto", a poesia concreta errara ao dar por encerrado o ciclo do verso. Por outro lado, o "Plano-Piloto" também afirmava que "a poesia concreta começa por tomar conhecimento do espaço gráfico como agente estrutural. Espaço qualificado: estrutura espaço-temporal, em vez de desenvolvimento meramente temporístico-linear".


Pois bem, ao efetivamente criar poemas de estrutura não-discursiva, espaço-temporal, a poesia concreta eliminou a possibilidade de qualquer fetichismo residual em relação a qualquer forma convencional da poesia. Trata-se, sem dúvida, de um feito eminentemente vanguardista, pois todos os poetas são afetados tanto pelas possibilidades que ele abre quanto pela conseqüente relativização de todas as formas tradicionais de poesia.


Entretanto, é preciso reconhecer que esse foi o derradeiro feito da vanguarda no campo da poesia. Com isso, não quero dizer, de maneira nenhuma, que deixe de existir a poesia experimental. Ao contrário: o feito vanguardista consistiu exatamente na abertura ilimitada de possibilidades experimentais. Acontece porém que, quando todas as experiências são possíveis e nenhuma possibilidade já experimentada está morta, cada qual está livre para seguir o seu próprio e singular caminho.


Que diríamos de um poeta ou crítico que hoje decretasse serem poemas só os experimentos vídeo-áudio-verbais? Ou só aquilo que fosse composto em versos metrificados e rimados? Ou, ao contrário, só aquilo que fosse escrito em versos livres? Sabemos hoje que, por princípio, não se pode em são juízo decretar o que é admissível e o que é inadmissível num poema; nem estabelecer critérios a priori pelos quais todos os poemas devam ser julgados.

O poeta moderno - e moderno aqui quer dizer "que vive depois que a experiência da vanguarda se cumpriu" - é capaz de empregar as formas que bem entender para fazer os seus poemas, mas não pode deixar de saber que elas constituem apenas algumas das formas possíveis; e o crítico deve reconhecer esse fato. Em tal situação, não pode haver nenhum caminho a ser indicado ou aberto por alguns poucos, para ser seguido pelos outros muitos. Não há mais vanguarda.


Nesse sentido, não há como não concordar com Haroldo de Campos quando, em seu ensaio "Poesia e Modernidade: Da Morte do Verso à Constelação. O Poema Pós-Utópico", afirma que "ao projeto totalizador da vanguarda, que, no limite, só a utopia redentora pode sustentar, sucede a pluralização das poéticas possíveis".


Antonio Cícero (1945) é compositor, poeta, filósofo, escritor e colunista do jornal Folha de S. Paulo. Além de ter participado de um grande número de antologias, é autor de:

Ensaios:

O mundo desde o fim. Francisco Alves, 1995.
Finalidades sem fim. Ensaios sobre poesia e arte. Companhia das Letras, 2005.

Poesia:

Guardar. Record, 1996.
A cidade e os livros. Record, 2002.

Seu sítio oficial: http://www2.uol.com.br/antoniocicero/

Blog: http://antoniocicero.blogspot.com/

01/07/2008

Jovens de Tefé novamente em Cartaz. Agora no Olimpia.

Imagem: Alberto Taveira

No documentário de Fernando Segtowick, “Jovens de Tefé”, filmado em 2007-Tefé-Am , está retratado os sonhos e ideais de jovens desta cidade amazônica que, como mini-centro urbano, é caracterizada por quase todo tipo de esperança e mazelas de nossa contemporaneidade. Sempre rompendo a tênue linha que separa cidade e floresta, os habitantes mais novos da cidade, retratados no documentário, seguem inclinados a gostar de tudo aquilo que não seja sua origem: dos cybers lotados, salões de bilhar, das canções de tecno-brega e todo tipo de entretenimento comum aos grandes centros urbanos que foram moldados ao padrão tecnológico vigente. Esquecem-se de toda, ou quase toda, a trajetória de seus antepassados, ou, pior ainda, renegam-na, e afirmam-se, Eles próprios, como outro tipo de gente, não-amazônico, condenando suas culturas seculares a segunda categoria. Mas como condená-los e dizer: “estão errados!”? Ora, Eles só estão fazendo o que nós, homens da cidade, eurocentristas e americanizados, já viemos realizando há cerca de quinhentos anos, e continuamos, em comum aos “jovens de Tefé”, a reafirmar a cultura das grandes metrópoles mundiais. O mundo mudou, a humanidade mudou e os sonhos e esperanças dos que lá habitam também mudaram. Já não mais se preocupam em olhar o rio e orientar-se por ele; a idéia de subsistência e vida em paz é coisa do passado, é comparado ao “fracasso dos pais”. O que importa agora é o número crescente de motocicletas e um bom emprego em multinacional qualquer que quiser explorar e arrasar a vegetação nativa, pois este é o progresso.

Os Jovens de Tefé, muito capengamente, vem acompanhando, ou tentando acompanhar, esta era “técnico-informacional” onde tudo gira em torno dessas cada vez mais novas tecnologias, que seguem reformulando todo o modo de viver do homem contemporâneo, condenando-o ao sufoco do dia-dia e ao “sem tempo pra nada”, onde tudo é resolvido por e-mails e onde tudo aponta para uma cultura individualista, onde um jovem, mesmo em Tefé, não mais se preocupa em comprar um telefone fixo, por tanto coletivo, que serviria a toda a família, e sim um celular exclusivo e de ultima geração, indo contra toda a cultura coletiva dos Tupabas e Tapibas que habitavam a região primitivamente e que, talvez, tenham sido extintos para que no século XXI esses nobres e atuais moradores da cidade tenham acesso a toda essa modernidade.


Jovens de Tefé(documentário)

Diretor: Fernando segtowick.

Duração: 17'min.

Ano: 2007

Em cartaz no Cine Olimpia até 06 de julho.

monomanníaco

29/06/2008

Livros inúteis (poema de Sebastian Brandt)

Conduzo a dança dos loucos
Pois estou rodeado de livros
nunca lidos e que nem compreendo.
Se vou à proa na nave
Não é sem justa razão
E bem-vindos os que bem me entendem:
Guardo um monte de tomos na minha casa
Que importa se não os entendo:
Tenho na mais alta estima
os espanadores e mata-moscas
Ouvindo falar sabiamente,
Respondo: “possuo isso tudo em minha casa”.
Basta-me, para estar entre os anjos,
Rodear-me dos meus livros.
Diz-se que Ptolomeu tinha
todos os livros do mundo
e os considerava o seu tesouro
ordenava-os nas prateleiras
e não era mais sábio por isso.
Tenho tantos livros quanto ele:
Ao Diabo se nunca os li!


Haveria eu de perturbar o meu espírito,
De me atolar num montão de saber?
O estudo impede as quimeras!
Não posso eu, um grande senhor,
Pagar para que se instruam por mim?
E, ainda que tenha o espírito obtuso
Se estou entre doutos
Sei dizer em latim: “Ita!
Mas no registo alemão
Estou mais à vontade que em latim.
Sei que vinho se diz vinum
Corno, qucklus, stulus cretino,
Faço-me chamar “douto sire”:
Basta-me esconder as minhas orelhas
Que ninguém descobrirá o burro do moleiro.

Sebastian Brandt, Stultifera Navis, 1494.

24/06/2008

ALGUMAS DEFINIÇÕES DE POETA:*

Vate : o possesso, inspirado por Deus, em transe, o que possuía um conhecimento extraordinário.
Bardo: poeta-cantor da tradição celta.
Hölderlin: “o que fica é fundado pelos poetas”.
Alfredo Bosi: “Poeta é o doador de sentido”.
Rimbaud: “O poeta é o verdadeiro ladrão de fogo”
Henry Miller: “A tarefa do poeta é sacudir os mortos vivos”.


Pois então:
Como possesso poeta-cantor
fundemos o por-vir
capituremos sentido onde nada há a cativar
lancemo-nos em roubo pelo fogo
a "sacudir os mortos vivos"

*um jogo com Marat.

monomanníaco

Claudio Willer e Roberto Piva (SURREALISMO)


Recentemente esteve em Belém o poeta, crítico e tradutor, Claúdio Willer para uma pequena série de palestras sobre surrealismo e suas influências e consequências, organizada pelo poeta Vicente Cecim, Revista Polichinelo e o Instintuto de Artes do Pará. Figura sem-par na poesia e crítica bresileiras, Willer é um poeta mais que acessivel à conversas, e como poesia surrealista é antes um estado em que se encontra e encherga-se a vida, não faltaram relatos sobre suas experiências como poeta e seus amigos que, juntos, começaram a fazer uma poética surrealista ainda na segunda metede do séc. XX, como Roberto Piva, de quem, "pela presença da imagem em suas poesias" Willer fez questão de colocar como o maior poeta surrealista brasileiro, ao lado de um Murilo Mendes e, pasmem, Jorge de Lima, o poeta mais conhecido por sua verve cristã!
Não faltaram discuções sobre a escrita automática, tema este do mais polêmico de toda a história da poesia surrealista.
Willer falou, ainda, da importância dos Cantos de Maldoror para o movimento surrealista, e da relação daquele com o Flores do Mal de Charles Baudelaire , e que essas obras, juntas ao Arthur Rimbaud, já eram o surrealismo em genese.
Foram lidos alguns poemas de Roberto Piva, entre:

Praça da República dos meus sonhos
Poema lacrado
Meteoro

Já neste video de Ugo Giorgetti, a seguir, com imagens gravadas na Biblioteca Mário de Andrade e no Teatro Municipal de São Paulo, e apresentação de Claudio Willer, além dos poemas listados a cima, assiste-se ao proprio Piva declamando outros do mesmo livro, Paranóia de 1963, a propósito do seu relançamento em Abril de 2000.

outros:

A Piedade
Sete cantos xamânicos


video

Mais informções sobre o surrealismo e sua fortuna círitica,
visite o sítio da revista Triplo V, aí ao lado.



monomanníaco

20/06/2008

Entretido Poema(conto)


Seguia os versos em fazeres do caminhar por ruas de concreto-ferro e asfalto galgado às galeras há anos infindos da cidade-império amazôn-ica vazia de sentido e pele caqui.
Divagava sobre o absurdo inexprimível do “quem sou eu!” Tentando alguma resposta ilógica como:


"Sou duas miliquinhentas macumbeiras num único transe a beira-mar.
A palavra para sempre proferida,
lida por todos pra todo o sempre,
porém nunca ouvida,
que o companheiro de Tristessa
grita na loucura do alto de seu paraíso.
Minha triste figura não é o que as freiras pensam
O que os advogados pensam
O que as mães imperdoáveis pensam
E nem o que pensa a simbólica ideologia-homem dum Milton Santos no inferno..."


Tirava versos a caminho louco de lugar algum.
Pedia aos trabalhadores que viessem a sentar ao lado em banco qualquer de toda hora e cuspissem em sua cara seus poemas prediletos mesmo que fosse sem poesia, mesmo recitado com algaravia miserável de seu dia-a-dia concreto-ferro e sem poesia.


"Venham, bebam meu álcool amarelo.
Deixem por instantes suas pás, enxadas e braços aos donos,
Pois a meu lado pás, enxadas e braços são inúteis ao poetar..."


Imaginava toda a frota de auto-veículos da cidade-estado de São Paulo posta em uma manga city do século dezenove a pasmar seus barões e prostitutas descalças e enluaradas.

Passo-após-passo verbos-versos verbalizavam seus passos de besta mula morrendo de sede na chuva, e passava. Engolia a cidade em preces cinzas de pranto para vomitá-la em outra, reconstruída de ideal inédito, sem túmulos em homens, sem mortos a palavrear qualquer cansaço.

Era o louco pastor de povos vazios assassinos dos poetas que morreram e que iriam matá-lo sem mais o que fazer, pois se não sabiam o que fazer ninguém deveria saber.

Seguia os versos em fazeres do caminhar por ruas de concreto-ferro e asfalto. Não usava os passeios, nem temia carros. Sentia a tarde e o cheiro de morte que saia dos carros.

Caminhando, seu braço esquerdo tropeçou no retro-visor esquerdo de um auto. Seguiu sem importância. E três tiros impediram-lhe o poema.

monomanníaco

18/06/2008

Soares Feitosa

Da caixa postal aos corrós de açude: uma visita ao poeta Ascendino Leite.

Marina Kalinovsky - Chess dois exércitos são o espelho de imagens de um outro - 2004


Também sou velhote: sessenta, batidos neste janeiro recém. Jovenzinho, dezessete, dava meus primeiros passos no jornal. Depois larguei tudo, fiscal do consumo, de concurso, dos mais jovens entre os jovens. Mas à época do jornal, quando me ligava, de obrigação, aos jornais, acho que lia sobre um certo Ascendino, nos jornais, um besouro doudo, muito doudo. Distante, pois, o meu primeiro contacto com o seu distinto nome.


Bom, meu primeiro contacto paraibano deu-se por via de um Wanderley. Juracy Gomes Wanderley, sobrinho de um certo Verniaud, Verniô, um nome assim, do Tribunal de Contas da União, ministro. O sobrinho, Juracy, um “prinspo”, o irmão que não tive, fizemos parelha aos estudos de fiscal do consumo. Ele também passou, foi para São Paulo, morreu por lá, de grande saudade. Ah, o nome do pai dele, Jair Wanderley, irmão do ministro do TCU.


Ele, o amigo, diria Ascendino, naturalmente “Aicendino”, de “aicensão”, que é assim que os paraibanos reproduzem o encontro “sc”, mesmo que não haja “i” algum.


Bem depois, de ofício, virei paraibano: morei na Manaíra quase um ano, transferido de contragosto. Em seguida o Recife, 14 anos morei lá. E, por último, a Cidade da Bahia, onde fiquei quase cinco. Aposentei-me e voltei — Fortaleza, mas sou dos matos, lá de dentro, daqui, Ceará.


Chegou-me o plano de dar um pulo até aí, a conhecê-lo. Futucá-lo de vara bem curta: conferir que existe (?!) esse meu poeta auroral. Abraçá-lo.


Larguei caminhos! Saí, saímos, eu, mais um casal de poetas daqui. Pelo meio, lembrei-me dos endereços. Trago-os no computador portátil. Em Aracati, beira do rio e ponte, abri a maquineta e lá estava:


Retrocedi, que já me acontecera igual, aliás, muito pior. Conto-lhe.


Cidade da Bahia, morava lá, me apareceu de correspondência, um convite aos peixes pintados, nas barrancas do Velho Chico, um poeta, gente finíssima, o Luiz Manoel Paes Siqueira. Disse-me ele: Petrolina, beira do Rio, aqui, venha!


Botei chãos de fome e léguas. Pois quando cheguei, de muito abafo e sol, procurei o endereço. Tal qual o de sua distinta pessoa, uma caixa. Bati lá. O moço do correio garantiu que ali, na caixa, não estava ninguém. Eu disse que sim. Ele disse que não. Afirmei-lhe que, de muito tempo, do primeiro rádio, na casa do coronel Honório Melo, passara a ter a certeza que ali, rádio, só podia estar de gentes, cheio, muitas, ainda que gente miúda, nos conformes do aparelho. É tanto que cantavam, mangofavam, saltitavam, dançavam.


Não! Não era nessas TVs de agora, que aí a certeza é total — estão todos por detrás da parede! A gente é que não consegue falar com eles, mas falam com a gente, mostram coisas que, de grandes sem-vergonhices, nem sei com que coragem.


Era, naquele tempo, um rádio, de botões de girar, a caçar outros ajuntados de vozes. Sim, de voz bonita! Depois a gente via o retrato deles na folhinha do almanaque. Inclusive a foto do Gonzaga, Luiz, que cantava do pai, Januário, oito baixos; ele, oitenta. Mas o de oito ganhava do de oitenta, coisa assim. Nem sei se isto é certo, oitenta perder para oito, mas, na cantoria, perdia. Ou, o filho, de bom, deixava o pai ganhar. Era bom o Gonzaga, um homem vasto e bom.


E, para fazer aparelho igual, rádio, a gente botava besouros mangangás dentro de uma caixa de fósforos, uma imprudência, no bolso, os bichos roncando bonito, grosso e macio. Dizíamos que eram notícias da guerra, do rádio da casa paroquial, em ondas-curtas, em espiquíngles, que ninguém entendia, nem o padre. Mas para quê?! Era bonito!


— Então, meu caro, como é que não tem gente aí dentro?!


Ele disse que isto de procurar gentes dentro da caixa postal havia de ser por conta do sol quente na cabeça do cristão — e se abanou. Real, andava eu sem chapéu, como sempre andei, e ali, naquela viagem, deixara longe o carro. Andei varas e varas de ruas até a acertar na caixa.


— É esta aqui, meu senhor, de nº 317. Veja, não me enganei não! É esta mesmo!


Ele falou que o número da caixa postal estava correto; mas, gente, paciência!, não tinha ninguém lá dentro. Pedi para olhar na frincha como se fora um primo meu que, em frincha igual, no cofre da igreja, em hora esquiva, fazendo-se de devoto, com um palitinho de visgo, pescava dinheiros. Mas não levava eu palito algum. Nem visgos. [Um dia ainda lhe conto da pega dos besouros, na caixa de fósforos!]


De tanto insistir, o senhor dos correios disse que iria telefonar, como de fato, pouco tempo depois, em vez do peixe e respectivo anfitrião, era o zumbido de sirenes. Não sei se a dos incêndios, da polícia ou do asilo de doidos, ou as três, juntas.


Só pode ter sido por conta das rezas de minha mãe, me acorreu sábia e prudente a idéia de me escapulir ligeiro, gesticulando que o meu amigo, do outro lado da rua, já me chamava, com o caldeirão de peixes. Não! Não era não. Claro que não, nem amigo, nem peixes.


Não deu tempo ver que condução chegou por lá, de sirene aos berros. Esquinas seguidas, virei para um lado, para o outro, por sorte o carro estava no lugar, engatei marcha de força, dois, três, quatro... quinta-marcha, tudo ligeiro! Varei sinais, barreiras, desviei-me dos bêbados, do pajem de carros e, agora lá longe: a estrada. Eu nela!


Respirando, pude ver, num beira-de-estrada, na tabuleta, depois de um café tomado como calmante, que apregoavam codorniz — assada, no sal grosso, uma delícia. Protestei, aliás, apenas indaguei (era de prosa) pelo Meio Ambiente.


O estalajadeiro murchou, acho que desconfiou da minha cara de fiscal, benzeu-se e me chamou discreto ao quintal:


— Veja, senhor, se eu disser que é pinto-de-um-dia, a clientela vai embora! Codorniz?! Nem lembro mais como era! Agora é pinto, doutor!


E abriu o chiqueiro, uma maloca deles, piu-piu, mas estavam cercados de isopor, acústico, para que ninguém os escutasse, embaixo e cima, piu-piu, adeus, codorniz! Piu-piu, adeus, freguesia.


— É pinto, doutor! — disse-me o da beira da estrada.


Sim, meu caro poeta Ascendino Leite, era pinto. Castiguei no sal. Estavam ótimos. Botei lonjura nos pés e sumi no poeirame. Lá na frente, na tarde seca, a sede! De puro milagre, o melhor refresco de maracujá da face da terra. Em jarra bojuda e copo, aliás, taça e jarra de vidro fino, cristal. Gelo em pedras, miúdas, estralando. Nos dentes. E no calor de dentro.


Eu disse:

— Não repetirei viagem de peixes à caixa postal! Vamos comer um corró de açude!


— Corró de açude?! — Espantaram-se os meus companheiros, um belo casal de poetas daqui, que os levava a conhecer o poeta daí. Chamaram o proprietário. Ele garantiu que ali, no rio Jaguaribe, no mar, nem em canto algum da bela e fidalga Aracati, sequer em Canoa Quebrada, havia esse produto, corró de açude.


Torcemos o itinerário. Lugarejo Monsenhor Tabosa, seu Jeremias, um velhote bem encurvado e atencioso, tangia nas mãos muitos atilhos de corrós, visguentos e cevados, alguns ainda abrindo o bico, do ar faltante, água, aliás.


— Corre, menino! Atalha seu Jeremias, que hoje vamos comer corró de açude — disse-me a mãe.

Corrós, ditos carás, ditos tilápias, com casca, aliás, escamas. A madrinha, com uma tábua, e, na ponta da tábua


um parafuso-tarraxa de cabeça bem grande, como se fosse um pino —, em poucos minutos os peixes eram limpos. Aos temperos de praxe, limão, vinagre, farofas, cebola vermelha, uma longa travessa com eles dentro. Um arroz ao branco, de solto.


E os peixes pretos e seus escuros, nas partes mais fritas, mas nem tanto. De sal e brilhos, os corrós de açude, no prato longo. Não e não! Recusarei qualquer descrição que os descreva. Então, de um lado, a mão e sua colher — a mão direita. Do outro, o peixe à esquerda, mão, segurando-o, direto, com a mão, a mão esquerda.


— É assim que se ocupam as duas mãos — disse-lhes.


O casal de poetas confirmou que sim. Mas a mãe não deixava. Dizia que eu não tinha idade de comer peixe com a mão. Havia de comê-lo, sim, catado por ela, pelas mãos dela, formando um montinho em que ia botando mais. A esquerda, mão, por enquanto, na frente dela, mãe, desocupada. Foi assim, enquanto estive lá, inclusive a passeio.


Botei pimenta pra cima do caldo do peixe, arrastei-o para dentro do arroz-pirão e perguntei se chovia. O proprietário franziu-se ao tempo e disse que sim. Um bom inverno, este 2004, confirmamos em coro. O sol era seco, mas debaixo dos cajueiros, sombra.


Reparei numa sombra longa, como se um despencamento no rumo do outeiro, alias, manhã. Porque estas coisas, noite e dia, são de uma só, a depender do olhar — o olhar de quem olha. Ascendino Leite, um poeta auroral. De manhã bem cedo há quem diga que já anoitece; outros dirão, da noite, em plena noite, que o amanhecer é questão de minutos. O olhar de quem, só isto.
Ascendino Leite, novent’anos, auroras, sabe delas. Não lembro quem me deu o endereço dele; acho que foi o Lau Siqueira, poeta, amigo. Mandei uns “papés”. Ele, de pura generosidade, me chama de mestre. Mandou livros. Um deles conta uma viagem. Da porta de casa, com anotação dos quilômetros saídos, passeados, proseados, até à porta de casa, de volta. De todos os gastos, tim-tim por tim-tim, em moeda que nem existe mais. Uma viagem a Argentina, com o leitor de dentro.

Soares Feitosa

Joyce - por Paladino


Belém

interferência em Francis Bacon

O ABAETÉ
monomanníaco

15/06/2008

Edgar Allan Poe

Sombra


"Na verdade, embora eu caminhe
através do vale da Sombra..."
Davi: Salmos.


VÓS QUE ME LEDES por certo estais ainda entre os vivos; mas eu que escrevo terei partido há muito para a região das sombras. Por que de fato estranhas coisas acontecerão, e coisas secretas serão conhecidas, e muitos séculos passarão antes que estas memórias caiam sob vistas humanas. E, ao serem lidas, alguém haverá que nelas não acredite, alguém que delas duvide e, contudo, uns poucos encontrarão muito motivo de reflexão nos caracteres aqui gravados com estiletes de ferro. O ano tinha sido um ano de terror e de sentimentos mais intensos que o terror, para os quais não existe nome na Terra. Pois muitos prodígios e sinais haviam se produzido, e por toda a parte, sobre a terra e sobre o mar, as negras asas da Peste se estendiam. Para aqueles, todavia, conhecedores dos astros, não era desconhecido que os céus apresentavam um aspecto de desgraça, e para mim, o grego Oinos, entre outros, era evidente que então sobreviera a alteração daquele ano 794, em que, à entrada do Carneiro, o planeta Júpiter entra em conjunção com o anel vermelho do terrível Saturno. O espírito característico do firmamento, se muito não me engano, manifestava-se não somente no orbe físico da Terra, mas nas almas, imaginações e meditações da Humanidade.

Éramos sete, certa noite, em torno de algumas garrafas de rubro vinho de Quios, entre as paredes do nobre salão, na sombria cidade de Ptolemais. Para a sala em que nos achávamos a única entrada que havia era uma alta porta de feitio raro e trabalhada pelo artista Corinos, aferrolhada por dentro. Negras cortinas, adequadas ao sombrio aposento, privavam-nos da visão da lua, das lúgubres estrelas e das ruas despovoadas; mas o ressentimento e a lembrança do flagelo não podiam ser assim excluídos. Havia em torno de nós e dentro de nós coisas das quais não me é possível dar conta, coisas materiais e espirituais: atmosfera pesada, sensação de sufocamento, ansiedade; e, sobretudo, aquele terrível estado de existência que as pessoas nervosas experimentam quando os sentidos estão vivos e despertos, e as faculdades do pensamento jazem adormecidas.

Um peso mortal nos acabrunhava. Oprimia nossos ombros, os móveis da sala, os copos em que bebíamos. E todas se sentiam opressas e prostradas, todas as coisas exceto as chamas das sete lâmpadas de ferro que iluminavam nossa orgia. Elevando-se em filetes finos de luz, assim que permaneciam, ardendo, pálidas e imotas. E no espelho que seu fulgor formava sobre a redonda mesa de ébano a que estávamos sentados, cada um de nós, ali reunidos, contemplava o palor de seu próprio rosto e o brilho inquieto nos olhos abatidos de seus companheiros. Não obstante, ríamos e estávamos alegres, a nosso modo - que era histérico - , e cantávamos as canções de Anacreonte - que são doidas -, e bebíamos intensamente, embora o vinho purpurino nos lembrasse a cor do sangue. Pois ali havia ainda outra pessoa em nossa sala, o jovem Zoilo. Morto, estendido a fio comprido, amortalhado, era como o gênio e o demônio da cena. Mas ah! Não tomava ele parte em nossa alegria! Seu rosto, convulsionado pela doença, e seus olhos, em que a Morte havia apenas extinguido metade do fogo da peste, pareciam interessar-se pela nossa alegria, na medida em que, talvez, possam os mortos interessar-se pela alegria dos que têm de morrer. Mas embora eu, Oinos, sentisse os olhos do morto cravados sobre mim, ainda assim obrigava-me a não perceber a amargura de sua expressão. E mergulhando fundamente a vista nas profundezas do espelho de ébano, cantava em voz alta e sonorosa as canções do filho de Teios. Mas, pouco a pouco, minhas canções cessaram e seus ecos, ressoando ao longe, entre os reposteiros negros do aposento, tornavam-se fracos e indistintos, esvanecendo-se. E eis que dentre aqueles negros reposteiros, onde ia morrer o rumor das canções, se destacou uma sombra negra e imprecisa, uma sombra tal como a da lua quando baixa no céu, e se assemelha ao vulto dum homem: mas não era a sombra de um homem, nem a de um deus, nem a de qualquer outro ente conhecido. E, tremendo um instante entre os reposteiros do aposento, mostrou-se afinal plenamente sobre a superfície da porta de ébano. Mas a sombra era vaga, informe, imprecisa, e não era sombra nem de homem, nem de deus, de deus da Grécia, de deus da Caldéia, de deus egípcio. E a sombra permanecia sobre a porta de bronze, por baixo da cornija arqueada, e não se movia, nem dizia palavra alguma, mas ali ficava parada e imutável.

Os pés do jovem Zoilo, amortalhado, encontravam-se, se bem me lembro, na porta sobre a qual a sombra repousava. Nós, porém, os sete ali reunidos, tendo avistado a sombra no momento em que se destacava dentre os reposteiros, não ousávamos olhá-la fixamente, mas baixávamos os olhos e fixávamos sem desvio as profundezas do espelho de ébano. E afinal, eu, Oinos, pronunciando algumas palavras em voz baixa, indaguei da sombra seu nome e lugar de nascimento. E a sombra respondeu: "Eu sou a SOMBRA e minha morada está perto das catacumbas de Ptolemais, junto daquelas sombrias planícies infernais que orlam o sujo canal de Caronte". E então, todos sete, erguemo-nos, cheios de horror, de nossos assentos, trêmulos, enregelados, espavoridos, porque o tom da voz da sombra não era de um só ser, mas de uma multidão de seres e, variando suas inflexões, de sílaba para sílaba, vibrava aos nossos ouvidos confusamente, como se fossem as entonações familiares e bem relembradas dos muitos milhares de amigos que a morte ceifara.

Edgar Allan Poe

André Breton

Poema


Tenho na minha frente a fada de sal

cuja túnica recamada de cordeiros

desce até ao mar

Cujo véu pregueado

de queda em queda ilumina toda a montanha.

Ela brilha ao sol como um lustro de água iridiscente

E os pequenos oleiros da noite serviram-se das suas

unhas onde a lua não se reflecte

para moldar o serviço de café da beladona.

O tempo enrodilha-se miraculosamente detrás dos seus

sapatos de estrelas de neve

ao longo dum rasto perdido nas carícias

de dois arminhos.

Os perigos anteriores foram ricamente repartidos

e mal extintos os carvões no abrunheiro bravo das sebes

pela serpente coral que sem custo passa

por um delgado

filete de sangue seco

na lareira profunda

sempre sempre esplendidamente negra

Esta lareira onde aprendi a ver

e sobre a qual dança sem cessar

o crepe das costas das primaveras

Aquele que é necessário lançar muito alto para dourar

a mulher em cujos cabelos encontro

o sabor que perdera

O crepe mágico o sinete voador

do amor que é nosso.

André Breton

12/06/2008



A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo. A ave voa para deus. E o deus se chama ABRAXAS.

__________________________________________________________________________________

16/05/2008

O menor Conto do mundo.

Este é o menor microconto de toda a literatura universal, escrito por Augusto Monterroso(1921 / 2003)(foto).


O Dinossauro


Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.


Augusto Monterroso

14/05/2008

Dois Poemas de Paulo Maldonado.

inspiração

a poesia está suspensa, penso
oscila como um pêndulo, entendo
e na hora pareço-me suspenso,
mas não sou eu quem se ausenta,
é ela, calíope traiçoeira,
pois permaneço instando versos,
trampo este ofício solitário


Suicídio.

poucos entendem o suicídio
cumpre-se o intento às vezes,
porém, se falha o ensejo
o desespero esvai-se e absurda
a existência perdura, não se trai,
amantíssima de si amante, vinga a vida

Paulo Maldonado, do livro Vago e Vagas - sette letras.
_____________________________________________________________________

10/05/2008

Graziano Staino - As Últimas Lágrimas Ouvidas No Planeta - The Last Tears from Planet Earth (2004).

video

Este video é uma história de viagem por um visionário deserto, onde a raça humana é uma memória distante ou um futuro longíncuo. Esta fusão de animais vivos da filmagem, fotografia e espelho, computador, animação, é uma interpretação de Staino sobre o que foi o nascimento do planeta Terra ou como seria o seu fim, servindo de definição ao beat da música eletrônica de Lorenzo Brusci. É uma bela elegia ao fim do tempo, ou acaba parecendo-nos também que o mundo está ainda em seu útero, mas não como a fase de Pangea, e sim o mundo tal como o vivemos agora, é como um povir do contemporâneo.


Ficha técnica:

Diretor: Graziano Staino
País: Itália
Elenco:
Naomi Há-vinh e Lawrence Ferlinghetti
Produção: Blindvision Production
Ano: 2003

monomanníaco
__________________________________________________________________

07/05/2008

JUAN BROSSA 1919-1998


Me fascina este catalão. O discurso visual, verbal e não-verbal, a coisa(ontológica) em sua obra poética, sim, sim poética(se dizia poeta e não gostava que o chamassem artista plástico) sempre me chamou atenção, desde sua apresentação pelo João Bandeira. O fato do Cara pegar um nype inteiro de baralhos, tranca-lo à cadeado e chamar a obra: "SEM ACASO" é instigante e mexe com conceitos que cresceram delimitados, com uma só possibilidade. As obras de Juan Brossa sempre foram o que Ele sempre quis que fossem, sempre atingiram a possibilidade do não-inerente, como a desvelar ontologicamente tudo aquilo à que não foi criado o objecto.



Um poema: "Uso"

Mesa.
(Não me refiro ao nome,
mas ao que designa.)
Mesa.
(Não me refiro ao que
designa, mas ao objecto.)


Modalidades a que se dedicava o Mago da poesia visual: poesia escrita em estrofes tradicionais (sonetos, odes sáficas, sextinas), poesia cotidiana (denominada antipoesia, pela temática e forma prosaicas), poesia cênica (teatro), roteiros de cinema, poesia visual, poesia-objeto, designer gráfico, instalações e poemas transitáveis (poemas em três dimensões colocados em espaços urbanos)



Era um excentríssimo Autor-Personagem, que servia como único e próprio campo de pesquisa à sua obra, e com isso se correspondia diretemente com toda a vanguarda de seu tempo. Reza a lenda que quando Wally Salomão O foi buscar em Barcelona para participar de um debate sobre poesia contemporânea, Ele não atendeu à campainha. Então Wally ligou para o telefone de Seu apartamento, e finalmente, após várias e axaustivas tentetivas sem resposta, D. Pepa, Sua esposa atendeu:


-Waly: Somos dois pobres poetas que atravessamos o Atlântico para uma entrevista, por favor nos receba!!
-D. Pepa: Entrem, entrem!
Dentro:
-Brossa: Não! Não dá! Eu me desconcerto até numa viagem de trem até Marcelha!
-D. Pepa: Você vai!

E aconteceu o encontro no Brasil, que contou com a presença de seu mui amigo João Cabral de Melo Neto.

Antologia lançada em 2005 no Brasil.

O Poesia Vista traz exatamente o discursso que me é dileto acerca de Sua obra, o verbal e o não verbal fundidos em imagens e palavras e palavras-imagens que são marcas registradas do mestre Catalão. A apresenteção foi de Glória Bordons e Haroldo de Campos, que ralacionam o Autor com João Cabral e com a vanguarda concretista de São Paulo. Sempre o consulto, sempre tenho ao lado este Poesia Vista. É onde percebe-se Sua obseção pelas letras do alfabeto.
Gostava tanto de vogais e consoantes, que isso O levou a fazer 5 caminhões arrastarem essa obseção numa curva, quando decidiu um novo poema visual, na formação: M.U.S.E.U.



imagem modificada por mim - usando o photoshop cs3


monomanníaco

21/04/2008

UM POEMA VISUAL UM SONETO ESTRUTURAL



20/04/2008

LENDA



Abel e Caim encontraram-se depois da morte de Abel. Caminhavam pelo deserto e reconheceram-se de longe, porque eram ambos muito altos. Os irmãos sentaram-se ambos na terra, fizeram uma fogueira e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando declina o dia. No céu aparecia uma ou outra estrela que ainda não recebera o nome. À luz das chamas, Caim reparou na marca da pedra na testa de Abel e deixou cair o pão que ia levar à boca e pediu que lhe fosse perdoado o seu crime.

Abel respondeu:

-Tu mataste-me ou fui eu que te matei? Já não me lembro; aqui estamos juntos como dantes.

- Agora sei que na verdade me perdoaste-disse Caim-, porque esquecer é perdoar. Eu tratarei também de esquecer.

Abel disse devagar:

-É verdade. Enquanto dura o remorso dura também a culpa.


Jorge Luis Borges, in Elogio das Sombras,
Obras Completas II 1952-1972,
A CARNE QUE O VERME NÃO CORROMPE - Marcos Mille - 2007

O VERME - POEMA DE ANDRÉ LEITE


O VERME HUMANO
CONSUMIDO PELO TEMPO
APODRECIDO POR DENTRO

OLHOU PRO NADA
CUSPIU NO VENTO
CAIU NA LAMA
CHOROU CORRENDO

O VERME HUMANO
ESTÁ MORRENDO
APODRECIDO
COM O PASSAR DO TEMPO

André Leite

17/04/2008

Péter Kántor - Direto de Budapeste

A CAMINHO

[ÚTKÖZBEN]

E houve quartos de hotel no caminho,
e todo o tipo de camas nos quartos,
e nas camas escavadas.

“Afundaram-nas, vês, com o trabalho,
com o gozo e suplício de muitos anos,
escavaram-nas, como uma cova.”

“E agora essa cama,
ou seja esse buraco,espera que venha
alguém quiçá que nela caiba exactamente.”

“Mas eu não caibo de modo algum,
porque não fui eu quem o escavou, eu não,
que cada um se deite em sua cova!”

Disse, e levantei-me de um salto.
No entanto, que boas pegadas!
Que cama tão bo