méleb, 13 de março de 2012

DO AMOR CONTIGO

Hoje modifico-te todos os dias.
Ando contigo.
Andas comigo.
Sou.
Tu És.
Estamos em tudo que é lugar
espaço
razão
Vazão de vida.
Querência onde encostei o meu amar.
Hoje, modifico todos os mares.

méleb, 04 de março de 2012/d.C.

CANÇÃO

O amor é esta vida 
A vida uma canção
Quem canta se apresenta
Quem não canta não

***

méleb, 02 de Março de 2012/d.C.

VIDA

Eu ouço a música de Jah
Eu ouço a vida

Eu sigo a música de Jah
Eu sigo a vida

Jah foi quem me criou
Eu amo a vida

E sempre, sempre sei quem sou
Eu sou a Vida

***

méleb, 29 de Fevereiro de 2012/d.C.

CHUVA

O mundo cinza
despencando todo
por todo lado.

A vasta vida
na vidraça...
...molhada...
...uma janela de chuva
ou um som que escutava...

***

méleb, 27 de Fevereiro de 2012/d.C.

AS OLIMPÍADAS DE 2016 NO RIO DE JANEIRO OU MEIA HORA DA VIDA DE DOIS VAGABUNDOS.
(escrito no dia 02/10/2009/d.C.)

Uma hora da tarde em um boteco qualquer da cidade. A tv anuncia: em instantes o mundo conhecerá o país cede das Olimpíadas de 2016. Dois bêbados encostados ao balcão conversam sobre qualquer coisa, quando de repente um deles, vestido com uma camisa do flamengo, disse ao outro trajado com uma camiseta preta surrada e jeans:

Ô vagabundo! Hoje o Brasil ganha, né?!

Todos os canais de tv, em todas as casas, a esta hora, anunciam ou uma super festa na areia de Copa Cabana ou um link direto da Dinamarca; no vídeo, aparecem as celebridades do Esporte mundial e alguns políticos famosos por suas corrupções metidos em ternos junto aos bundões do COI. Ah, claro, e um famoso e conhecido escritor.

Pera aí porra! O que o Paulo Coelho faz aí nessa onda? Vocês viram o Paulo Coelho aí nessa onda?! Admira-se o bêbado que traja luto enquanto traga seu álcool amarelo de enlouquecer. É foda! Que decepção, até ele apoiando essa merda!

Claro meu amigo, ele é um dos brasileiros mais conhecidos lá fora, pelo menos foi o que deu no jornal. Defendeu o bêbedo flamenguista.

É tudo uma merda mesmo! Eu sou um cachaceiro filho da puta, mas não precisa ser doutor para saber que toda a grana que vai ser gasta nessa porra toda de olimpíadas, poderia ir para a educação ou para minha aposentadoria de invalides.

Uh! Aí tu morria de beber vagabundo. Se essa grana fosse pra tu, tu murria de beber. Sem ser aposentado tu já bebe feito um cachorro doido o dia inteiro. Inda mais aposentado.

É mesmo. É foda mesmo. E o boteco ficou todo em gargalhadas de cachaça e fumo.

Depois de algum intervalo regado a doses e gargalhadas e tragos, o bêbado do flamengo pergunta ao seu chegado:

Mas e aí, tu acha mesmo que o Brasil ganha essa parada?

Não sei. Respondeu o outro com ares de profunda reflexão iluminada. Assim como não entendo como isso pode ajudar o país.

Como não! Pois fique sabendo que isso movimenta muita grana pela cidade. Até tu pode trabalhar na construção...

Posso, mas não quero, não vou. Cortou o bêbado revoltado. Prefiro morrer de tanto beber a ter que trabalhar pra esses malditos banqueiros.

Pros banqueiros?! Pergunta admirado o bêbado flamenguista. Eu ia dizendo que tu pode trabalhar na construção, na construção CIVIL!

Ora meu caro, e quem tu acha que banca a construção CIVIL?!

O outro não respondeu.

Entre o trabalho e a cachaça eu prefiro a maldita! Concluiu o bêbado vestido de preto.

Bem, ainda bem que tu não é o Brasil todo! Sentenciou o outro.

Como assim porra?! perguntou admirado o de camisa preta.

Porra cara, a olimpíada vai gerar um montão de emprego e ainda tem o pré-sal! O Brasil vai ficar na moda cara! Tu não assiste o jornal porra!

É hein! E essa porra toda de pré sal vai servir só pra encher mais ainda o mundo de plástico e de lixo. Quero ver se começar a ter terremoto no Brasil, aí eu quero ver!

- O importante é o crescimento econômico porra! Aborreceu-se o bêbado torcedor do flamengo sem compreender por que o seu amigo era contra os jogos olímpicos no Rio de Janeiro e contra a exploração do pré sal.

Calaram-se por um instante e beberam seus copos de cachaça enquanto prestavam novamente atenção ao que diziam na tv:

Ha ha! Olha o Pelé aí. Esse doido chamou o Michael Jordon de Michael Jackson. Só o Pelé mesmo. Deveriam ter levado o Maguila no lugar dele, pelo menos ele ia logo chamar o Obama de negão e pronto! Isso sim ia ser engraçado porra! Mais um trago, continuou: Tu sabe qual foi a maior pérola do Maguila?

- Perder pro Holyfield e se abostar na lona. (gargalhadas ao alto)

Não seu bêbado vagabundo, isso foi um vexame isso sim. Refiro-me a máxima iluminada que o Maguila, meu ídolo, saltou um dia na tv, dizendo: “O TRABALHO DANIFICA O HOMEM!” Este bêbado que trajava luto e jeans surrado fã do Maguila quase morre de tanto rir enquanto o flamenguista não entendia nada.

Porra bicho! O filosofo disse: “O TRABALHO DIGNIFICA O HOMEM” e o meu grande ídolo, José Adilson Maguila, diz que o trampo DANIFICA! Ele é foda mesmo!... É mas vamo deixar toda essa porra pra lá. Ganhando ou não agente vai ficar na merda mesmo, então vamo tomar mais uma dose e ver essa porrra de resultado aí no jornal!

Uma e meia da tarde neste boteco qualquer da cidade, a tv dizia:

E a sede para as Olimpíadas de 2016 é...


***

24 de Fevereiro de 2012/D.C.


O HOMEM INVISÍVEL DE TODOS OS TEMPOS

Nuvens amarelas de sol.
Tarde de sonhos visíveis.

Loucuras visíveis de tardes invisíveis
tornam-me o homem invisível de sonho dos homens.

Pedaços do que sou.
Linhas de pensamento que não penso.

Assim, mansa mesmo,
segue-me a poesia pela vida.


***

A Lua trespassada

13 de Junho de 2011/D.C.



punk
Minha cabeça explodiu do nada
E agora as coisas vão sempre paradas
Ninguém me disse como eu andava
Escada abaixo vou pela escada
 
Aperto um mas não acendo nada
A vida passa ou segue parada
Agora vejo a vida pela escada
Com minha cabeça que explodiu do nada 

29 de Maio de 2011/D.C.


No ano de 2009, o Rio Tapajós, um dos mais lindos do mundo, em um pôr-do-sol mais lindo do mundo, deu-me esta linda fotografia feita com câmerazinha digital dessas das mais comuns possíveis.

30 de Abril de 2011/D.C.

Três e trinta e quatro da manhã,
em méleb todos os anjos descansam sonolentos dos meus sonhos de loucura sem trégua.
Um long play do Nei Lisboa chichiando no robôzinho três em um,
e uma garrafa de Forestier apodrecido desde 1955
esvazia-se por mim.
Desenho de Cairo Moraes - in 3demaio.blogspot

15 de Outubro de 2010/D.C.

Seria hoje mais um aniversário do NIETZSCHE.



Alessandro Bavari

CURA DELL'INCANTO IN CHIAVE MINORE(Trittico) Fotografia, cm 124 X 268 - 2006

14 de Novembro de 2010/D.C.

Por
gentileza
seja
educado
puxe
a
descarga
obrigado!

12 de Novembro de 2008/D.C.

O Carlos Machado enviou-me outra pérola negra da poesia, que tem tudo haver com outros dois contos escritos aqui no mèleb : Entretido poema e Le città invisibili. O Carlos Machado enviou-me o José Paulo Paes (1926-1998), paulistano e poeta, autor de, entre outros, A meu esmo, livro lançado em 1995 e que é estardalhaço lírico e que anuncia ou escancara a desarraigada vida desalmada da tal cidade que vive e nos mata. A cidade invisível. A cidade feliz de miséria.


REVISITAÇÃO
Cidade, por que me persegues?

Com os dedos sangrando
já não cavei em teu chão
os sete palmos regulamentares
para enterrar meus mortos?
Não ficamos quites desde então?

Por que insistes
em acender toda noite
as luzes de tuas vitrinas
com as mercadorias do sonho
a tão bom preço?

Não é mais tempo de comprar.
Logo será tempo de viajar
para não se sabe onde.
Sabe-se apenas que é preciso ir
de mãos vazias.

Em vão alongas tuas ruas
como nos dias de infância,
com a feérica promessa
de uma aventura a cada esquina.
Já não as tive todas?

Em vão os conhecidos me saúdam
do outro lado do vidro,
desse umbral onde a voz
se detém interdita
entre o que é e o que foi.

Cidade, por que me persegues?
Ainda que eu pegasse
o mesmo velho trem,
ele não me levaria
a ti, que não és mais.

As cidades, sabemos,
são no tempo, não no espaço,
e delas nos perdemos
a cada longo esquecimento
de nós mesmos.

Se já não és e nem eu posso
ser mais em ti, então que ao menos
através do vidro
através do sonho
um menino e sua cidade saibam-se afinal

intemporais, absolutos.


De A Meu Esmo (1995)

20 de Outubro de 2008/D.C.

Ulisses e Eu
Olhava à janela da rua fumando um fumo clandestino arranjado com o negão, pensando as luzes arcaicas da introspecção de meu eu-poema(palavrafundida). Ando em reflexão constante que quase não mexo nada. Meu gato Ulisses revirando-se em meus pés acabava por entrar em poema, mas, gato que era, entediou e me fugiu como louco. Estava faltando apenas mais um pouco do cânhamo enrolado em papel, quando um trin trin de telefone apressado trouxe-me vozes humanas, e morremos, Ulisses e eu, afogados em náufragos poemas ilimitados.

Odirlei Couto

14 de setembro de 2008/d.C.

Ayuaska

Eu vi o deus-luz pisando meu calabouço. Insetos em setas imediatas contra todos os pecados meus e chorei os gritos da incerteza idiota. Numa das luzes meu pai com duzentos e vinte cinco anos, virava as costas ao retirar-se por escadas umbrosas, recolhendo-se em sí, cansado de viver tanto tempo e virou todo luz. Táxis ao infinito e a estátua de Alvares de Azevedo gritando num tempo de dor e percepção. E era um certo deus de pele azul e pés de lótus, contaminando anjos com esperença infinita. Pontos de luz reflentindo sobre mim, no sentido do que faço e sou e não era nada. Até que outros insetos apontaram-me setas que levaram-me ao Pai. Parti seguindo o rasto de sua direção-bondade. E nunca mais tive medo.
Soneto 225 inexorável

Beleza na mulher chega a ser chata,
de tão obrigatória que se faz.
Perfídia não lhe fica nada atrás,
pois quanto mais bonita mais ingrata.

O jovem julga a pérfida uma gata,
mas ela acha um cachorro seu rapaz.
Contudo, o tempo nunca a deixa em paz,
e a face da velhice já tem data.

Ser feio é mais vantagem. Quem o é
já fica como todos vão ficar:
a cara, velha ou não, do jacaré.

A bela, se tiver nariz no ar,
um dia vê no espelho um lheguelhé.
Só resta-lhe a vassoura pra voar.

Glaucomattoso

Fotografias de Michele Santarsiere. In DevilSoap.

vampire-sushi

vampire-sushi II

vampire-sushi-I

Um olho novo vê do ovo

Um olho novo vê do ovo

0000000000000000000
0000000000000000000
0000000000000000000
0000000000000000000
0000000000000000000
0000000000000000000
000000000V000000000
0000000000000000000
0000000000000000000
0000000000000000000
0000000000000000000
0000000000000000000
0000000000000000000
Max Martins

O poeta do pesadelo e do delírio, por Pedro Maciel.*

“Paranóia”, o primeiro livro de poemas de Roberto Piva, publicado em 1963, é de “uma beleza quase insuportável”. As fotos dos anos 60 de Wesley Duke Lee criam uma atmosfera alucinada da cidade de São Paulo. O livro, relançado pelo Instituto Moreira Salles, é uma releitura delirante de “Paulicéia Desvairada”, de Mário de Andrade. Jorge de Lima e Murilo Mendes são os outros autores que convergem com a obra de Piva.


Roberto Piva é um poeta dos anos malditos e desbundados. Segundo o poeta, “a minha vida & poesia tem sido uma permanente insurreição contra todas as Ordens. Sou uma sensibilidade antiautoritária atuante. Prisões, desemprego permanente, epifanias, estudo de línguas, LSD, cogumelos sagrados, embalos, jazz, rock, paixões, delírios & todos os boys”. Talvez ele seja o único poeta brasileiro verdadeiramente surrealista. O surrealismo proclamou a prevalência absoluta do sonho, do instinto e do desejo. Investiu contra os padrões estabelecidos, desprezando a lógica e renegando a ordem moral e social. O processo de criação dos surrealistas baseava-se no inconsciente como meio mágico para inspirar a imaginação criadora.


“Paranóia” foi comentado em 1965, na revista La Brèche, dirigida por André Breton, o maior pensador do surrealismo. Segundo a resenha, “Paranóia é o primeiro livro de poesia delirante publicado no Brasil” e ressalta as influências de Piva, como Lautréamount, Freud e “a mais moderna literatura beat norte-americana”. Eles ainda acrescentam que o livro transmite “a fascinação dos neons e a alucinação pela metrópole metálica que evocam as fotografias de São Paulo inseridas no seu livro”. Com a publicação do livro, Piva também foi incluído no “Dictionnaire Générale du Surréalism”, de Adam Biro e René Passeron.


Roberto Piva é um poeta trágico; vive à beira do abismo. Pode-se dizer que ele é um poeta “marginal”. “Seja marginal, seja herói”, proclamava Hélio Oiticica. Piva levou essa sentença ao pé da letra: “eu preciso esquecer que eu existo”. Ele cai na vida pra criar poesia. Os intertextos poéticos falam das putas, dos cafajestes, da vida mundana e existencial: “no exílio eu padeço angústia os muros invadem minha memória / atirada no Abismo e meus olhos meus manuscritos meus amores / pulam no Caos”.


O texto de Piva é um nó na garganta, quase nos tira a respiração. É uma piração total. Seus versos vorazes transmitem o desespero de uma existência tumultuada. Ele trilhou as ruas e becos mais sujos da cidade de São Paulo para escrever “Paranóia”: “Meus pés sonham suspensos no Abismo...” O poeta faz da “anarquia um método & modo de vida” para descer aos subterrâneos do inferno. Traz o céu assombrado para iluminar a terra: “Eu vi os anjos de Sodoma escalando / um monte até o céu / E suas asas destruídas pelo fogo / abanavam o ar da tarde (...) Eu vi os anjos de Sodoma lambendo / as feridas dos que morreram sem / alarde, dos suplicantes, dos suicidas / e dos jovens mortos (...) Eu vi os anjos de Sodoma inventando a / loucura e o arrependimento de Deus”.


“Paranóia” é um pesadelo. Alucinação. Poesia intuitiva; inspirada. Tudo em Piva converge para uma ação mágica, guiada pelos mandamentos do xamanismo, do ocultismo e do camdoblé. Mas a sua obra não é obscura e nem irracional. A sua poética se vincula na própria existência. Místico e rebelde, o poeta norteia uma experiência radical de linguagem, recorre às imagens oníricas, transfigura a realidade e nos aproxima do mundo, fundindo sonho, poesia e vida.



Poemas**


Jorge de Lima, panfletário do Caos



foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima
enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente
na minha memória devorada pelo azul
eu soube decifrar os teus jogos noturnos
indisfarçável entre as flores
uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas
como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca
palpita nos bulevares oxidados pela névoa
uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil
de tua túnica
e um milhão de vagalumes trazendo estranhas tatuagens no ventre
se despedaçam contra os ninhos da Eternidade
é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado
querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve
estar como uma talismã nos lábios de todos os meninos







No Parque Ibirapuera



Nos gramados regulares do parque Ibirapuera
Um anjo da Solidão pousa indeciso sobre meus ombros
A noite traz a lua cheia e teus poemas, Mário de Andrade, regam minha
imaginação
Para além do parque teu retrato em meu quarto sorri
para a banalidade dos móveis
Teus versos rebentam na noite como um potente batuque
fermentado na rua Lopes Chaves


Por detrás de cada pedra
Por detrás de cada homem
Por detrás de cada sombra
O vento traz-me o teu rosto


Que novo pensamento, que sonho sai de tua fronte noturna?
É noite. E tudo é noite.
É noite nos pára-lamas dos carros
É noite nas pedras
É noite nos teus poemas, Mário!
Onde anda agora a tua voz?
Onde exercitas os músculos da tua alma, agora?
Aviões iluminados dividem a noite em dois pedaços
Eu apalpo teu livro onde as estrelas se refletem
como numa lagoa

É impossível que não haja nenhum poema teu
escondido e adormecido no fundo deste parque
Olho para os adolescentes que enchem o gramado
de bicicletas e risos
Eu te imagino perguntando a eles:
onde fica o pavilhão da Bahia?
qual é o preço do amendoim?
é você meu girassol?

A noite é interminável e os barcos de aluguel
fundem-se no olhar tranqüilo dos peixes
Agora, Mário, enquanto os anjos adormecem devo
seguir contigo de mãos dadas noite adiante
Não só o desespero estrangula nossa impaciência
Também nossos passos embebem as noite de calafrios
Não pares nunca meu querido capitão-loucura
Quero que a Paulicéia voe por cima das árvores
suspensa em teu ritmo


*Este artigo foi publicado no caderno “Prosa & Verso”, do jornal O Globo, em 3 de Maio de 2008, a propósito do relançamento do livro "Paranóia", pelo Instituto Moreira Salles.
**Poemas do livro Paranóia (1963), de Roberto Piva


Pedro Maciel é autor do romance “A Hora dos Náufragos”, Ed. Bertrand Brasil.
E-mail: pedro_maciel@uol.com.br



A Praça da República dos meus sonhos

Roberto Piva

A estatua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem de morfina
A praça leva pontes aplicadas no centro do seu corpo

E crianças brincando na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos

Onde tudo se fez febre e pombas crucificadas
Onde beatificados vem agitar as massas
Onde Garcia Llorca espera seu dentista
Onde conquistamos a imensa dossolação dos dias mais doces
Os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
Lábios coagulam sem estardalhaço
Os mictórios tomam lugar na luz
Os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremis diante do paraíso
Bundas glabas sexo de papel
Anjos deitados nos canteiro cobertos de cal
Água fumegante nas privadas
Cérebros sulcados de acenos
Os veterinários passam lentos, lendo Dom Casmurro
As jovens pederastas embebidos em lilás
E putas com a noite passeando em torno de suas unhas
Há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
Enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh, minhas visões
Lembranças de Rimbeaud
Praça da República dos meus sonhos
A última sabedoria debruçada numa porta santa.

Roberto Piva

Fotografia, o Cemitério Santa Izabel, o Guamá e Eu.



Creative Commons License


Câmera utilizada: nem uma
Técnica: nem uma
Disposição: nem uma
Intenção: nem uma
Modific
ação: nem uma


Odirlei Couto


Vídeo com fotografias de Alessandro Bavari, minhas e também do próprio Joy Division. Uma colagem para Heart and Soul do disco Closer de 1980. Um grande disco. Uma grande música.

Odirlei Couto
Sonho

Alessandr Bavari - Preludio All'incesto tragemelli Monozigoti - fotografia, 147x125 cm - 2003


O sonho meu desta madrugada, encantou-me por seu caráter fantástico, o que é próprio do reino onírico: a Fantasia. Sonhei ser um certo deus de pele azul e pés de lótus. E como fosse eu a atração principal de uma amostra mágica, voei por sobre uma platéia frenética e conhecida. Com um sentimento de potência e vontade, análogo a de um Zaratustra, sentia a extrema presença de deus por todas facetas várias do meu ser, este era aquela presença, era o próprio deus. Voando rente aos expectadores, vi e ouvi, ainda, Dante perguntando a Virgilio:


-O que acontecerá, Virgilio, agora? Gotas de prata ou mel choverão ao peso de aguaceiro do céu? Ou lótus puro e manso?

monomanníaco

E-zine cafagestagem! e o Fanzine Ponto de Fuga. n° 12#

Desenho da capa de "Caminhos tortuosos", relançado no e-zine Cafagestagem!

O Márcio Cruz teve uma idéia fantástica: o E-zine Cafagestagem! da Abuso produções, saquem parte do editorial:

"Um primeiro trabalho ainda experimental que tenta fundir a prática artesanal da confecção de fanzines, com o que pode ser considerado moderno, a edição de imagens. Tudo sendo canalizado para o grande meio de comunicação dos tempos atuais, a internet."

O Márcio Cruz irá disponibilizar parte do seu acervo de antigos zines de todo o brasil e os editados por ele mesmo. Na primeira edição o e-zine traz o "Caminhos tortuosos", com um texto de Bertold Brech, poemas(vários), anúcios, HQ, desenhos e outros baratos afins. Mais uma iniciativa da Abuso Produções.

Cofiram o e-zine e suas atualizações
e-zine cafagestagem!: http://cafajestagem.blogspot.com/
abuso produções: http://www.abusoproducoes.gigafoto.com.br/

Capa de Luiz Otávio para o n°12# do Ponto de Fuga.

Me veio como revista, o fanzine n° 12 dos quadrinhistas associados do Pará, lançado no abril de 2002 d.c, com capa de Luiz Claudio e também editorial; que teve tiragem de trezentas cópias; número de edição comemorativa dos seus dez anos de praça; sendo "distribuido no meio alternativo de Belém, publicando novas e velhas HQ's, artistas locais, fazendo movimento, levantando a bandeira da arte sequêncial. Quadrinístico." Que teve na contra-capa uma chinesa muito gostosa de autoria de Alex Barry. Número do Zine com seu super-héroi chamado Crânio que estrelava em "Esses humanos"( a estranhesa desta história teve Francinildo no texto e Léo Raic na arte). Que se anunciava numa página assim: " Você gosta de arte? Música? Poesia? Psicodelismo e outros baratos afins? E não sabe onde fica o ponto de Fuga? Então você esta perdido!" Que teve a história de um típico laboratório de ciêntista louco, em um encontro de três típicos ciêntistas loucos: Dr. Mistério, Dr. Sinistro e Dr. Macabro (histórinha esta do Marcelo Marat), faltando apenas o Dr. Fantástico para completar o disparatado jogo de predadores infinitos. Chegando na metade, este gostoso Zine, no número em que lhe falei, traz a aventura desventurosa do Gato Xilef, " acusado de plágio por Crumb e tendo como único jeito a eliminação do personagem( outro plágio!)." Virando a página você tem ( eu intitulo) a difícil empresa do personagem de Chiquinho que contrasta com a seguinte: A terrível história do "Vira-porco", a mais extensa metragem de quadros desta famosa edição, com fotografia histórica em sua outra contra-capa e o resto da turma. Fanzine que trouxe em sua outra capa o elegante cyborg fantástico de Anderson Bezerra, a la Blade Hunner.

O Ponto de Fuga também fez história em Belém. A história dos fanzines, que agora o Márcio Cruz pretende recontar com o seu e-zine.
Muito bem.


Representação

De repente, do nada
o pensamento surge.
E, como que, querendo registrá-lo,
pego papel e caneta
sento-me à mesa
e deslizo a esferográfica preta
na folha ainda virgem.
Signo por signo
formo o meio comunicativo
e me divirto com a liberdade
de poder escrever o que quiser.

poema extraído do zine caminhos tortuosos no e-zine cafagestagem
!

Julio Cortázar

Este conto foi publicado originalmente em La otra orilla, 1945, com o título original de El hijo del vampiro e é considerado o primeiro conto escrito pelo argentino Julio Cortázar, em 1937. Conto de que pode-se dizer fantástico ou surreal, mas prefiro ficar com sua clara e desvelada faceta de horror.

O filho do vampiro

Provavelmente todos os fantasmas sabiam que Duggu Van era um vampiro. Não o temiam, mas deixavam o caminho livre quando ele saia de sua tumba precisamente à meia-noite e entrava no antigo castelo à procura de seu alimento favorito.

O rosto de Duggu Van não era agradável, a quantidade de sangue ingerido desde sua suposta morte – no ano de 1060, pelas mãos de um menino, novo David armado de uma atiradeira-punhal – havia infiltrado em sua pele opaca a coloração mole das madeiras que ficam por muito tempo debaixo d’água. A única vida naquele rosto eram seus olhos. Olhos fixos na figura de Lady Vanda, adormecida como um bebê na cama que não conhecia mais que seu corpo leve.

Duggu Van caminhava sem fazer ruído, a mescla de vida e morte que formava seu coração se resolvia em qualidades inumanas. Vestido de azul escuro, acompanhado sempre por um silencioso séqüito de perfumes rançosos, o vampiro passeava pelas galerias do castelo buscando depósitos vivos de sangue. A indústria frigorífica o houvera indignado. Lady Vanda, adormecida com a mão sobre os olhos como em premonição do perigo, parecia um bibelô, um terreno propício ou uma cariátide.

Louvável costume de Duggu Van era o de nunca pensar antes da ação. Parado diante da cama, desnudando com a levíssima mão carcomida o corpo da rítmica escultura, a sede de sangue começou a ceder.

Se os vampiros de apaixonam é coisa que na estória permanece oculta. Se houvesse meditado, a condição tradicional haveria detido talvez à beira do amor, limitando-o ao sangue higiênico e vital, porém Lady Vanda não seria para ele uma mera vítima, destinada a uma série de coleções, a beleza irrompia de sua figura ausente lutando, exatamente no meio do espaço que separava ambos os corpos, com a fome.

Sem tempo para perplexidades, ingressou Duggu Van com voracidade estrepitosa no amor, o atroz despertar de Lady Vanda atrasando em um segundo as suas possibilidades de defesa e o falso sonho do desmaio houve de entregá-la, branca luz na noite, ao amante.

Fato é que, de madrugada e antes de ir embora, o vampiro não pode com sua vocação e fez uma pequena sangria no ombro da desvanecida castelhana. Mais tarde, ao pensar naquilo, Duggu Van sustentou para si que as sangrias resultavam muito recomendáveis para os desmaiados. Como em todos os seres, seu pensamento era menos nobre que o simples ato.

No castelo houve congresso de médicos, perícias pouco agradáveis, sessões conjuratórias e anátemas, e, além do mais uma enfermeira inglesa que se chamava Miss Wilkinson e que bebia genebra com uma naturalidade emocionante. Lady Vanda esteve longo tempo entre a vida e a morte (sic). A hipótese de um pesadelo demasiado verdadeiro foi abatida frente a determinadas comprovações oculares; e, além do mais, quando transcorreu um lapso razoável, a dama teve a certeza de que estava grávida.

Portas fechadas com Yale haviam detido as tentativas de Duggu Van. O vampiro tinha que alimentar-se de crianças, de ovelhas, até de – horror! – porcos, mas todo o sangue lhe parecia água ao lado daquele de Lady Vanda. Uma simples associação, da qual não o livrara seu caráter de vampiro, exaltava em sua lembrança o gosto de sangue onde havia nadado, guloso, o peixe de sua língua. Inflexível sua tumba na passagem diurna, era preciso aguardar o canto do galo para pular, desfigurado, louco de fome.

Não havia voltado a ver Lady Vanda, mas seus passos o levavam uma e outra vez à galeria terminada na redonda burla amarela de Yale. Duggu Van estava sensivelmente pior.

Pensava às vezes – horizontal e úmido em seu ninho de pedra – que talvez Lady Vanda teria um filho seu, o amor recrudescia então mais que a fome. Sonhava sua febre com violações de trincos, seqüestros, a construção de uma nova tumba matrimonial de ampla capacidade. O paludismo se escondia nele agora.

O filho crescia, quieto, em Lady Vanda. Uma tarde ouviu Miss Wilkinson gritar para sua senhora. A encontrou pálida, desolada, tocava o ventre coberto ao relento, e dizia:

- É tal qual o pai, é tal qual o pai.

Duggu Van, a ponto de morrer a morte dos vampiros (coisa que por razões compreensíveis o aterrorizava), tinha ainda a débil esperança de que seu filho, acaso possuidor de suas mesmas qualidades de sagacidade e destreza, maquinaria algo para trazer-lhe sua mãe algum dia. Lady Vanda ficava cada dia mais pálida e aérea. Os médicos maldiziam, os tônicos recuavam. E ela, repetindo sempre:

- É tal qual o pai, tal qual o pai.

Miss Wilkinson chegou à conclusão de que o pequeno vampiro sangrava a mãe com a mais refinada das crueldades. Quando os médicos se inteiraram da situação, falou-se de um abordo, plenamente justificável; porém Lady Vanda se negou, virando a cabeça como um ursinho de pelúcia, acariciando com a direita seu ventre ao relento.

- É tal qual o pai – disse-. Tal qual o pai.

O filho de Duggu Van crescia rapidamente. Não apenas ocupava a cavidade que a natureza lhe concedera, mas invadia o resto do corpo de Lady Vanda, que agora podia apenas falar, já não lhe restara sangue; e se havia algum, estava no corpo de seu filho. E quando veio o dia estabelecido para o alumbramento, os médicos disseram que aquele ia ser um parto estranho. Em número de quatro rodearam o leito da parturiente, aguardando que chegasse a meia-noite do trigésimo dia do nono mês do atentado de Duggu Van.

Na galeria, Miss Wilkinson viu aproximar-se uma sombra. Não gritou porque sabia que não ganharia nada com isso, o rosto de Duggu Van não era de provocar risos, a cor terrosa de seu rosto havia se transformando em um relevo uniforme e cardão, em vez de olhos, duas grandes interrogações lacrimejantes se balanceavam sob o cabelo endurecido.

- É absolutamente meu – disse o vampiro com a linguagem caprichosa de sua seita – e ninguém pode interpolar-se entre sua essência e meu carinho. Falava do filho; Miss Wilkinson acalmou-se.

Reunidos em um ângulo do leito, os médicos tratavam de demonstrar uns aos outros que não tinham medo. Passavam a admitir mudanças no corpo de Lady Vanda, sua pele repentinamente escura, as pernas que se enchiam de relevos musculares, o ventre que se achatava suavemente e, com uma naturalidade que parecia quase familiar, o sexo que se transformava no contrário, as mãos que não eram mais as de Lady Vanda. Os médicos sentiam um medo atroz.

Então, quando soaram as doze, o corpo que havia sido Lady Vanda e era agora seu filho se aprumou docemente no leito e estendeu os braços até a porta aberta. Duggu Van entrou no salão, passou frente os médicos sem vê-los e tocou as mãos de seu filho.

Os dois, olhando-se como se se conhecessem desde sempre, saíram pela janela, a cama ligeiramente desarrumada, os médicos balbuciando coisas em torno dela, contemplando sobre as mesas os instrumentos do ofício, a balança para pesar o recémnascido e Miss Wilkinson na porta retorcendo-se as mãos e perguntando, perguntando, perguntando.


Tradução de Cassiano Viana

TITO IGLESIAS

Um naco onomatopaico, inspirado no som da máquina de modelar próteses poéticas.*


Aquela Vénus de Milo tinha a boca cheia de rimas inaudíveis e de invisíveis grainhas de uva. Porque as cuspia - a cada cinzelamento do nervoso escultor - de braços não carecia... Assim, eram os decepados braços cúmplices do vôo das grainhas. E também, antes e após cada golpe, se escutavam, ritmicamente, as escondidas rimas.

Mas por que esborrachei eu cinco formigas sobre o branco tampo marmóreo por onde corriam? E por que só essas cinco, no ziguezague do acuso, na laboriosa fila? Teria ocorrido pelo contraste da cor, ou pela sua irritante mobilidade perante a sempre sólida e fria impassibilidade do mármore? Mistérios numéricos ocultos no interior da mente e acionando os inconstantes dedos do instinto...


Absortos, alguns filósofos gregos limpavam os seus dentes incisivos, à sombra do Partenon, com os palitos obsessivos das ideias, Mas não os caninos, para os quais reservavam, coerentes, um osso hedonista,.. Criação consiste - ó bárbaros e passivos povos, espectadores de TV - em palitar os dentes brancos de uma página em branco, na brancura de um livro, com ideias agudas! E, como exemplo, em umedecer e plantar, no nada, as fecundas sementes caídas da imaginação de lusos surrealistas (Cesariny, Cruzeiro Seixas, António Maria Lisboa & Poucos Mais, pois vários outros apenas embusteiros flibusteiros terão sido!).
Um urso pesado, do porte de um granadeiro, calcou, para sempre, há muitos lustros, a débil planta jovem que seria o primeiro pinheiro de Natal, da idade adulta, de minha tia. Tia tristíssima para toda a vida, sabedora que a pata do passado esmagara o que seria a sua verde arvorezinha privativa. E tia para sempre séria, formando docilmente fila para a sua ração diária de melancolia.
Mas não sejamos torrenciais, neste "cadavre exquis", ó meu irmão siamês! No parágrafo que a mim me cabe, a seguir, tornar-me-eí sintético: sobre a alvura de uma calvície (definição de cogumelo), eis um chapéu-de-chuva conservadoramente preto.
Ao entardecer, ratos ociosos vinham às amuradas do sótão e às bibliotecas municipais de Lisboa, após consultar e roer as páginas amarelas, tocar violino. Rato (mas só mentalmente) rima bem com o verbo roer. E aqueles ratos sábios roíam cordas até se fartarem, mas não eram os ratos do rei da Rússia. Mas certa aluna - aquela mulher jovem e branca, de cabelos negros - era qual violino, ondulado pela volúpia, que o velho professor de música não sabia tocar. Nem roer. Autocrítica (apalpando o tecido de veludo do verbo tocar): com algum requinte linguístico, tanger soa mais canoramente. E é mais peculiar de violino. Mesmo para quem só, como eu, efectua, como artífice, ninhego e galego, simples obturações de poemas antigos. Mas que nunca pretende ser articida.
Naquele cantão com brasão, em todos os vigésimos sextos dias de cada mês, atrás de um biombo pudico permitiam locar bombo sobre o chapéu-de-coco do Presidente (com todo o respeito) da República. Bosta deveria ser escrita sempre com letra maiúscula! - digam-no à míope, ou melhor distinguindo, míope ratazana Eustáquia, que circula pela Baixa com pretensões de jornalista. E o vocábulo ratazana, no meu entender, por seu asqueroso pêlo molhado, próprio dos esgotos ulissiponenses (nunca uma cloaca atraiu para suas águas adjetivo de tamanho esmero) bem poderia ser acentuado. Assim: ratazana, perfidamente esdrúxula... Zénite, zircónio, zoófago e zoógrafo são palavras acentuadas pelo z, ou pelo acento ngudo? E, perante tal modo de zunir, ou de zurrar, melhor não seria "azentuadas"? - interrogo-me, com modéstia, meditando na minha tardia arte de bem inventar a toda a sela.
Surrealismo, ó académicos de peludas mãos vendadas e de brancos joelhos ocultos, nãoé, admitam-no, piromania! E, num arquipélago próximo, seria Gauguin um doente no percurso finnl? Ou, afinal, não um paciente mas um pincel? Pincel bebendo, como um cavalo, na sua paleta. Ou pincel molhado em cores quentes? Ó puristas, com vossas gigantescas borrachas de apagar erros ortográficos do proletariado, debaixo do braço! As minhas sinistras assdciações de ideias forçaram-me a fundar, na Polinésta, a Associação dos Leprosos Mentirosos...
Continuo marchando, a passo de ganso, obliquamente, pelo passeio, sobraçando uma régua compridíssima, em direção à rubra frente de batalha. Mas que farei eu com esta verde boina de pára-quedísta sobre o crânio, senão agarrar-me a ela - cheia já de ar - no momento da queda? E não quero proteger-me, eu juro, com as boinas das idéias feitas, nem arrastar-me, coxeando, pelas bermas da literatura, com o auxilio das muletas dos lugares-comuns. Mas, na verdade, prosseguirei eu, solitário, embora a duas mãos, escrevendo este texto sem policiamento? - o potente motor da motocicleta do surrealismo. E não constituirá já esta íntima interrogação -xinquiridora - um súbito desvio do puro jorro de criação artística?
Espiritualmente, eu, que jamais fui a Buenos Aires, apesar da minha permanência e proximidade no Rio Grande do Sul, ia conduzindo pelo braço Jorge Luís Borges (que também - tal como eu - não logrou um Nobel), ao longo da Calle Florida, muy florida. Florida qual aquela longínqua parede de subúrbio, ensanguentada por palavrões. E também por bolas e riscos obscenos. De quando em vez, tropeçávamos nas consoantes, chocávamos contra a afiada esquina das sílabas, onde havia uma barbearia. Para alardearmos descontracção e confiança, íamos Jorge Luís e eu assobiando canções castiças, na penumbra. Não queríamos admitir que ambos estávamos cegos. Pretendíamos, no nosso íntimo, ser o guia um do outro... E que canções continuávamos assobiando pelos ruas e praças de Buenos Aires, inspirada e sentidamente, mesmo sem enxergar, no trajecto, o velho armazém rosado? E não será óbvio? Por Buenos Aires adiante... Não adivinha, leitor circunspecto? Mas que se poderia assobiar na famosa cidade do Rio da Prato senão czardas!
As czardas do escultor dinamarquês Mário de Sá-Carneirol (E como vos deslumbrará esta minha policultura). Moral do naco, mesmo sem molho de onomatopéia: a policultura - que é policresta - produz-me polifagia...
E Camões cogitava, na cidade do Castelo de S. Jorge, numa estátua-ventilador que, sempre que folheassem vertiginosamente "Os Lusíadas", perante as desinteressadas e sonolentas pálpebras reais, varresse, em torno, os inúmeros imbecis da corte... Isto, antes de o poeta ter estátua e de ser praça...


Antes que se sorteassem, entre as ossadas anónimas, aquelas a transferir para o Mosteiro dos Jerónimos. E que se apunhalassem, em suas carteiras de madeira, indefesos jovens, virtuais amantes de poesia. Obrigando-os a retalhar, anatomicamente, estrofes inteiras em orações gramaticais. Como que aproveitando aquele pulcro corpo de poesia, estendido já sobre o mármore da imortalidade, para efectuar a sua autópsia. Antes que muitas figuras históricas de Portugal fossem pintalgadas de vermelho e outras cores, após Abril, pelos anões da política a da revolução. Parcialmente cego, devido a certeiro golpe desferido pelo materialismo dos seus contemporâneos, pedia Luís de Camões esmola no Chiado, junto à Leitaria Garrett, ambos nomes de poetas posteriores, alimentados pelos fartos seios dos anacronismos...

Hoje, loja trespassada, apenas uma "boutique", onde se entra e não se permanece. Ou um belo sarcófago luso, repleto de recordações dos ex-frequentadores, onde a memória deles permanece envolta em faixas de branco linho e perfumada por desconhecidas ervas aromáticas. Encerrada há muitos anos (lia-se antes, imodestamente, num letreiro: "Esmerado serviço de chás e torradas"), mas, oniricamente, propriedade minha e do Vitorino, o qual muito ali namorou (então, quase ninguém sabia que éramos poeta e cantor). Propriedade também dos alunos de Belas Artes, de Lisboa, hoje pintores conhecidos, como o Batarda e vários mais, que, antes do naufrágio solar, se agarravam à jangada de uma torrada com manteiga.

E quedo permanecia, quase sempre, em sua mesa o João das Baratas - o doutrinador da "Garrett", com sua tímida atração por miúdas e seu humor subtilíssimo. Denominado "das Baratas", porquanto dedicava 0,5% do seu tempo de ócio e de riso à nobre e incompreendida arte de desinfestar casas alheias com um insecticida eficaz contra baratas, cuja fórmula herdara do pai.
"Depois das três da tarde" - insinuavam-lhe sobre as chávenas - "todas as baratas são pardas..."
Camões passava, de novo, à porta, vindo da Rua Ivens. E suplicava: "Troco um soneto por um copo de leite... Ou uma estrofe por uma torrada!"



(*)Publicado em: Revista Brasiliense de Letras, n° 14, Brasilia, 1995.
Qualquer coisa sobre o Autor:
Tito Iglesias, é um poeta espanhol que escreve em português, residente em Paço d'Arcos (Lisboa), de teor surrealista, responsável pela divulgação de bons poetas Portugueses aqui no Brasil, onde morou por dezessete anos. Membro da Academia Brasiliense de Letras.

imagens: Odirlei Couto
ÂMBAR GRIS - UM CONTO DE RUBEM FONSECA.

Como todos sabem
o animal mais inteligente

que existe é o cachalote.

Ele não vai à lua porque

apenas quer ser feliz

e também (confesso) não tem

o dedo polegar.

Mas basta ouvir uma só vez
a Nona de Beethoven,

ou as obras completas de Lennon &

McCartney,

ou o Ulisses,
ou os elementos de bibliologia,
que sua mente computaplexa

armazena tudo e reproduz nota por

nota, palavra por

palavra, a qualquer momento,
pelo resto da vida.
"Professor Lilly,
V.Sa. que é o maior neurofisiologista
especialista em

physeter macrocephalus,
quem é mais inteligente:

o homem ou o cachalote?"

"O cachalote, evidentemente."
"Professor Lilli,
V. Sa. que é outrossim
especialista em

delphinus delphis,

quem é mais inteligente,
é o homem ou o golfinho?"
"Empatam. Mas os astutos maneirismos,

truques e tricas do golfinho

levam-me a supor,
que o QI do golfinho

seja um pouco superior.
Permita-me que chame"

- continua o doutor Lilly-
"minha jovem (e linda)
assistente, a doutora

Margaret Howe, que viveu com
um golfinho chamado Peter,
durante dois anos e meio."

"Nossa vida sexual foi um fracasso",
diz a doutora Margaret,
"ele queria
eu queria.
Peter inclusive estava aprendendo inglês,
mas eu peguei uma pneumonia
no fundo da nossa piscina escura,
e sem mais nem menos,
acabamos."
"De qualquer forma",

diz o doutor Lilly,
"a comunicação interespécies
já é um fato."


Rubem Fonseca - Lúcia McCartney - Cia das Letras - p. 97/100

21 de julho de 2008/D.C.

Poesia surrealista. E da receita o cozido.

Na revista, acho que eletrônica, Wave, acho que mensal, no dia dezenove do corrente, saiu artigo sobre Breton e sua importância para a arte do século XX. Relevante tudo o que o editor-chefe da publicação expõe sobre surrealismo em poesia e artes plásticas e manifestos, e a influência de Breton sobre todos os que aderiram ao movimento, desde o início ou mais tardiamente.
O interessante, e afirmativo no artigo, é o fato de mostrar que uma grande e grossa parte de críticos (impoetas) depositam todos os créditos apenas a... Salvador Dalí. A revista aponta para que Dalí é tido, pelo público, como o grande surrealista de todos os tempos, mais que Breton. Seria pela difusão da informação, anos atrás, de que surrealismo é um estilo de pintura? Pelo menos aqui no Brasil era assim que se via o surrealismo, como uma atividade apenas pictórica (claro que esse entendimento era o da grande parte inculta de toda a crítica nacional e, graças a Abraxas, não pertencia, este entendimento, a críticos-poetas do século XX). "Sem Breton não existiria surrealismo!" é a afirmação que faz o artigo ao leitor e a si próprio. E assim encerra a questão de quem é quem.

Através dos difusores, quase undergrouds, do surrealismo no Brasil, como Sergio Lima, Claudio Willer, Roberto Piva, Rodrigo de Haro e outros, fomos tendo conhecimento de grande parte da história do surrealismo, e conseguimos afirmar, hoje, que o surrealismo jamais morreu, porém não foi eterno. Surgiu, sim, com Breton, num período pouco anterior a 1924, ano da exposição editada de suas idéias e começo da influência do surrealismo, como movimento, em outras vertentes artísticas que não apenas a literatura.

Incorre, compromete-se, comete o erro mesmo, o artigo da Revista Wave, ao afirmar que: “... é muito simples cozinhar uma poesia surrealista”, e ainda sugere ingredientes para o "cozido"! E afirma, ainda, que por não se relacionar com os meios incultos ("não acadêmico", ele diz) Breton não tem importância nenhuma no Brasil. Só lembrando que foi exatamente fora do academicismo que o surrealismo começou a ser divulgado do Brasil e que o academicismo só se voltou a estudá-lo de forma acadêmica nos anos noventa, e que apenas hoje o meio acadêmico chega a novas interpretações do que é o surrealismo no mundo inteiro.

Comparar a estranha experiência da produção de um poema, surrealista ou não, a uma receita de cozido, e sugerir que esta é parecidíssima a construção de uma escrita automática, parece piada disparatosa que só tem espaço pelos miseráveis e insuportáveis orkut's da vida enlatada de quem tem pouca ou nenhuma imaginação.
A poesia surrealista nunca foi, não é e nunca será (afirmo!) apenas modalidade de escrita automática ou criações de cadáveres delicados a torto e a direito. Um movimento artístico jamais será apenas a reunião de pessoas voltadas à arte. É preciso que haja uma produção artística. Reuniões só se forem de Artes para então proclamar um movimento e suas metas, mesmo que estas últimas sejam nem uma.
A receita da Revista Wave só serve à criação inútil e preguiçosa de um palavrório horrendo que comumente encontra-se editado por aí como não-prosa, onde por trás há uma miserável algaravia, e é chamada poesia. Pois afirma que a produção de um poema surrealista é apenas um fluxo de idéias considerado até onde a vontade mandar, e que pode ser executado com ingredientes vulgarmente encontrados. Imaginem se assim fosse quantos poetas surrealistas maravilhosos teríamos!

Poesia surrealista é antes um olhar que escritura. Poesia surrealista, se tiver processo, ele é imagético. Poesia surrealista é perceber o não-ordinário inerente à vida/vidas que nos cerca/m. Poesia surrealista é percepção. Poesia surrealista é erudição. Poesia surrealista é quando um homem meio-morto encontra-se encostado paciente em um encontro ou intercessão entre uma farmácia e funerária e o poeta surrealista daí faz um poema. É referêncial. É um enxergar mundo não-convencional, e ainda assim submete-la, a poesia surrealista, ao convencionalismo do que se chama arte. E tudo isso não é, não pode, não quer ser fácil, como receita de coisa qualquer. Isto nem é receita. É a imagem que diz o poema surrealista ou não.

monomanníaco

imagens de Jeffrey Michel Harp.

O link da revista Wave e seu artigo:
http://www.revistawave.com/blog/index.php/2008/07/19/traido-pela-historia/